O Bom Rapaz

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Há uns tempos, surgiu o desafio Smash or Pass? no YouTube. Não vi muitos vídeos, mas pelos a que assisti, percebi que, basicamente, o jogo consistia em escolher alguém com base nas fotos/vídeos que publicavam e… nos seus atributos físicos. Foi a ideia generalizada com que fiquei: “hmm… smash X porque é loira, e eu gosto de loiras” ou “smash Y porque tem um bom par de mamas”. Nunca assisti a um smash referindo-se o sentido de humor ou a inteligência da pessoa.

A tendência Smash or Pass? evaporou-se na velocidade estonteante das redes sociais. Contudo, recordo-me de pensar como tudo aquilo reforçava estereótipos de género. Sendo este conteúdo visualizado por muitos menores, de alguma forma, legitimou-se a escolha do outro exclusivamente com base naquilo que vemos, na aparência. E em quem detém o poder dessa escolha.  Não vi nenhum conteúdo feito por YouTubers femininas e, embora existam, são em número bastante inferior aos que envolvem desafios protagonizados por rapazes e homens. Talvez porque as mulheres e raparigas ainda sejam reprimidas, na educação e na sociedade, sobre esse tal “poder de escolha”. Lembrei-me do fenómeno com a polémica estreia de alguns formatos televisivos recentes, onde, mais uma vez, é incentivada a ideia do homem que exerce o poder de escolher uma mulher, assistimos à evolução desta tendência que julguei perdida nos meandros do YouTube, e tão fugaz que nem nos deveríamos preocupar – afinal, eles são só bons rapazes. Quem é este bom rapaz? Existe uma boa definição na canção dos Quatro e Meia: Sou um tipo muito atado / Ando mal-habituado / A fazer só o que quero / Tenho tudo nunca espero / A mamã é uma querida / lava a roupa dá comida / faz de mim um incapaz / mas eu sou um bom rapaz. Serão muitos os homens que se revêm nesta definição? Eles não são incapazes. Não pode ser esta a imagem do Século XXI. Arrisco a dizer que a grande maioria dos homens não se revê nesta definição. Hoje, tal como as mulheres precisam de ser incentivadas a lutar pela sua liberdade, dignidade e independência, neste mundo que se quer igual, os homens precisam de lutar pelos mesmos valores. Lutarmos lado a lado. Precisamos assumir-nos feministas. E o feminismo não é oposto ao machismo, mas sim um movimento que defende equidade entre os géneros, em que todos temos de lutar para promover a igualdade de direitos e oportunidades. É só isso que se pretende. Não queremos bons rapazes ou boas raparigas, queremos boas pessoas. E se durante muito tempo, a responsabilidade de educar recaia sobre as mulheres, que ensinavam filhas e filhos a cumprir o exigido pela sociedade: homens fortes e mulheres submissas, hoje, mães e pais têm o desafio de educar cidadãos do mundo capazes de defender valores universais.