Não quero ter sorte

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Entrei   no  comboio  das  20h55  da  mesma  forma  que  a  grande maioria das  pessoas  o  faz: cansada, distraída e com a consciência agonizante de que ainda me faltava cerca de uma hora  de transportes para conseguir pôr os pés em casa. Telemóvel na mão e companhia do outro lado da linha, felizmente.

Quando ele entrou, já sabia que ia ter problemas. O fatinho de treino e a garrafa de litro de Coca Cola meio vazia convidam imenso ao estereótipo mas raramente indicam o que quer que seja. Entrou a falar alto, sozinho, como que a reclamar para o ar e com aquela efusividade que põe instintivamente  de  pé atrás  quem está habituado a lidar com este tipo de coisa. Qualquer ser humano que seja mulher, portanto.

Até podia não me ter calhado a mim, se o comboio estivesse mais cheio mas, àquela hora,  e com apenas mais duas pessoas por perto, um senhor e uma senhora ambos mais velhos do que eu, dei por mim a baixar a cabeça e a apertar com mais força o telemóvel contra a mão. Como se isso fosse evitar o que quer que fosse passar-se a seguir.

– Olá. – disse ele, de forma meio arrastada, depois de se ter sentado nas três escadinhas que dão acesso ao andar inferior do comboio, mesmo à minha frente.

Não devia ter reagido. Foi estúpido. Podia ter corrido mal. Mas foi instintivo e, para mais, continuava ao telemóvel. Ter alguém do outro lado dá-nos sempre uma falsa sensação de segurança, como se ao primeiro sinal de alarme eu conseguisse puxar pela mão o desgraçado que estava do outro lado da linha, a 300 Km de distância, e obrigá-lo a salvar-me o dia (porque tem de ser um homem a salvar o dia, não é?).

O caso é que respondi. Nada. Uma coisinha de nada. Aquela interjeição de desprezo e nojo “sai-me-só-da-frente-se-fazes-favor” que não conseguimos controlar. Assim que abri a boca, vi a cena seguinte do filme, segundos antes de acontecer:

– Deves achar que és muito boa! É isso? Achas que és muito boa é? A tua sorte é que eu saio na próxima senão…

Saiu na próxima, sim. E eu tive sorte. Tive mesmo. Ele podia não ter saído. Em vez dele, podiam ter saído os dois gatos pingados que me separavam não quero pensar bem de quê.

Mas eu não quero ter sorte. Aliás, eu não quero que fazer um percurso de transportes públicos até casa sem me sentir ameaçada ou insegura entre na minha definição de “sorte” quando deve entrar na definição de Direitos Humanos Fundamentais. Eu não quero ter sequer o vislumbre de que se tivesse acontecido alguma coisa, a culpa seria minha, porque respondi. Já ouvi o discurso do “deves achar que és muito boa” tantas outras vezes em que, por acaso, fiquei calada. A responsabilidade não pode  recair sobre mim, sobre nós. Tem de ser colocada em toda e qualquer pessoa que ache que pode intimidar outra apenas porque lhe apetece. Até lá, continuaremos dependentes das paragens para saída alheias.