NÃO POSSO TRABALHAR E SER MÃE?

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Durante algum tempo evitei falar. Em
pleno século XXI ainda precisamos de ter cuidado com o que dizemos porque a censura
existe e muitas vezes somos penalizados simplesmente por dar a nossa
opinião. 

Agora já não preciso de ficar calada.
Agora posso dizer que não interessa a muitos patrões contratar mulheres com
filhos. Uma mulher com filhos é uma chatice porque provavelmente vai faltar, vai
meter baixa. Esquecem-se que antes de sermos funcionárias da empresa X ou Y,
somos mães. E ser mãe não é só parir. Ser mãe é ser responsável por um ser
humano. É estar presente quando é preciso, é dar de si. Não é só
pagar a educação, os jardins-de-infância, os ATL, as amas. Isso é o de menos!
Ser mãe é ter tempo para os filhos, é acompanhá-los à escola, é ir às reuniões
de pais, é sentar no sofá com eles e ver bonecos na TV, é brincar, é ajudar a
crescer. E quantas não são as mães que mal veem os filhos durante o dia porque
têm de passar horas a mais nos seus empregos? Não. Isto é redutor. Isto é obrigar
a delegar a educação e a felicidade dos nossos filhos a terceiros. Para mim não
serve. A sociedade não está preparada para mulheres com filhos. Mulheres com
filhos são sinónimo de problemas para as empresas. 

Pessoas que eventualmente possam adoecer
também não prestam. Um trabalhador a contrato que se atreva a meter baixa por
doença (seja pontual, crónica, um pós-operatório, não importa) é um trabalhador
a riscar da lista. Hoje em dia interessa às empresas ter pessoas-máquinas que
não falem, não adoeçam nem tenham ninguém ao seu encargo. É por isto que ficar
efetivo é uma missão quase impossível. Ou passas o teste do contrato (nem uma
única falta, nem um único lamento, disponível para tudo o que a empresa quiser,
palas nos olhos e boca cosida) ou segues o caminho do centro de emprego. 


É isto que se passa nos privados.

E não se atrevam a fazer greve. A greve
para contratados é igual a cessação de contrato. 

Quanto ao não abrir a boca: não lamentes
se não sais a horas. Não lamentes se não tens hora de almoço. Não lamentes que
o equipamento com que trabalhas não tenha condições de segurança. Não lamentes
o volume excessivo de trabalho. Não digas sim. Não digas não. Tudo o que
disseres vai ser usado contra ti quando se aproximar a data de termo do
contrato. 

O melhor mesmo é abdicares da tua vida
pessoal, pernoitares no local de trabalho, engraxares os sapatos aos superiores
e assim, sim, és uma boa menina ou um bom menino e talvez fiques efetivo.

Suponho que
existam exceções, felizmente, mas sei que em alguns privados é mesmo assim que
funciona.