MULHERES QUE NOS INSPIRAM

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Somos fruto das nossas vivências e das pessoas que nos rodeiam. A nossa personalidade vai-se moldando em função dos inputs que vamos recebendo ao longo da vida. Esta é a nossa grande conquista, reconhecer os contributos que os outros nos dão e moldá-los, como plasticina, à nossa medida. Ouvir histórias inspiradoras dá-nos força para tornar a nossa própria história mais forte. Precisamos de ouvir, ver e conhecer percursos diferentes dos nossos para sairmos da zona de conforto e podermos superar-nos.

Num mundo que está a avançar por caminhos que nos deixam de pé atrás, o mesmo mundo que elege Trump e Bolsonaro na mesma década tem, no outro prato da balança, uma energia positiva e transformadora que nos enche de esperança, dando alento para que continuemos a acreditar que não está tudo perdido.

A política tem sido um campo de batalha para as mulheres, já houve ganhos significativos mas sempre muito difíceis e sofridos. Tomemos como exemplo a Nova Zelândia, que tem vivido várias lideranças femininas. No livro Head and Shoulders: Successful New Zealand Women Talk to Virginia Myers, de 1986, Helen Clark conta que a campanha para as legislativas de 1981 foi extremamente difícil: “Por ser solteira, fui massacrada. Fui acusada de ser lésbica, de viver numa comunidade, de ter amigos trotskistas e homossexuais”. Helen afirma que foi pressionada pelo seu próprio partido a casar com o sociólogo Peter Davis, com quem vivia há cinco anos, pouco antes de ser eleita para o Parlamento. Não tem filhos. Agnóstica, Clark tinha reservas profundas em relação à ideia de se casar e, segundo escreveu Brian Edwards na biografia Helen— Portrait of a Prime Minister, de 2002, chorou durante toda a cerimónia.

Contudo, os ventos de mudança vão soprando.

Falemos de Jacinda Ardern, primeira-ministra Neozelandesa.

Na Nova Zelândia as coligações são a regra desde 1990. Além disso, os eleitores já viram os mesmos partidos aliarem-se tanto à esquerda como à direita. É o caso desta nova legislatura. Ao fim de 26 dias de negociações conseguiu formar-se uma coligação entre o bloco Trabalhistas, Verdes e o Partido Nacional.Foi Winston Peters quem teve a missão de escolher o primeiro-ministro e a sua escolha recaiu sobre Jacinda Ardern em detrimento de Labour, candidato populista com influências americanas. Este foi o grande passo.

Atualmente, na Nova Zelândia, fala-se em “Jacindamania” devido ao carisma da nova primeira-ministra, uma mulher convicta e determinada que se apresenta sem qualquer ambiguidade. Jacinda Ardern acumula três pastas: Segurança Nacional e Serviços Secretos, Arte, Cultura e Património e Crianças Vulneráveis, as mesmas pastas que tinha como líder da oposição.Mal tomou posse, Ardern começou a pôr em prática o lema da sua campanha: “Let’s do this.”

E durante todo o processo de eleições? Não terá havido sexismo?

Bem, apesar de apostar na mudança, a Nova Zelândia continua a sentir na pele, tal como o resto do mundo, resquícios dos vários séculos de patriarcado.

Onde sentimos o sexismo? Por exemplo, na questão: “Vai Jacinda Ardern ter filhos?”.

De acordo com o Jornal Público, a pergunta foi feitasete horas depois de ter sido eleita líder do Partido Trabalhista. “Muitas mulheres chegam aos 30 anos e têm de escolher entre terem filhos ou continuarem a sua carreira. Essa é uma escolha que sente que tem de fazer ou que já fez?”.  Na resposta, Ardern não se deixou intimidar e referiu que perceciona este como um dilema que muitas mulheres têm de enfrentar. No entanto, defendeu que acha inaceitável que nos dias de hoje um empregador ainda coloque esta questão pois é uma decisão das mulheres escolherem quando querem ter filhos e esta escolha não pode predeterminar se são ou não contratadas.

Já a desempenhar funções, Jacinda anunciou a sua gravidez em janeiro e disse que quem ficaria em casa a tomar conta da bebé seria o seu namorado Clarke Gayford. Esta questão ainda chegou a ser notícia, demonstrando como estão atrasadas as mentalidades. Ardern é a mais jovem política de sempre à frente dos destinos da Nova Zelândia e lança escadas para novas realidades. Coloca-se no patamar “gente como a gente” quando afirma que não é a primeira mulher a trabalhar e a ter um bebé. Admite as circunstâncias especiais em que o faz mas reitera que muitas outras mulheres irão fazê-lo. Foidelicioso ver a ONU receber uma mãe trabalhadora que se esforça para conciliar os seus vários papéis. De acordo com Dujarric “temos apenas 5% de líderes mundiais mulheres, por isso a ONU precisa de criar condições para que estas se sintam bem-vindas.”

Bem-vinda a mudança, que derruba barreiras gigantes com pequenos passos.

E a vocês? Quem vos inspira?