MEUS AMIGOS CHARLIE por Joana Marques

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“Meus amigos Charlie”

Muito se tem falado sobre o ataque (cobarde e) terrorista à redacção do jornal satírico Charlie Hebdo. Falamos sobre isto, escrevemos sobre isto, desenhamos sobre isto, caricaturamos sobre isto (quem tem arte e engenho para tal). Porque precisamos de o fazer. Este atentado entra directamente para a galeria dos acontecimentos que nunca esqueceremos. Lembraremos para sempre o que estávamos a fazer quando ouvimos a notícia. Da mesma forma que me lembro de estar num aniversário, a comer empadão, quando dois aviões embateram contra as torres do WTC (podia ser uma lembrança que passasse uma ideia de lifestyle mais fascinante, mas é o que tenho para oferecer).

Tão preocupante como o acto propriamente dito, são algumas opiniões que se vão lendo por aí, com um argumentário assustador. Coisas como “os franceses puseram-se a jeito” ou “eles já tinham avisado, e eles não pararam, é bem feito”. A somar à ameaça terrorista, paira sobre nós agora a ameaça da estupidez. Quando discordo destas pessoas, que defendem a violência como reacção admissível ao escárnio,  a resposta é infalivelmente esta: “também estás a limitar a nossa liberdade de expressão”. Não, não estou. Refutar uma opinião, discuti-la, ridicularizá-la até, se me apetecer, não é proibir ninguém de a ter. Quem coloca ao mesmo nível uma piada e um tiroteio, como se fosse responder na mesma moeda, assusta-me, e não é pouco. Andar armado com esta ignorância é quase tão perigoso como ter posse de arma.

No meu (ainda curto) percurso profissional na comédia, já recebi ameaças de: açorianos, nortenhos, alentejanos, vegetarianos, empreendedores, desempregados, benfiquistas, sportinguistas, portistas (que, toldados pela militância furiosa, nem percebem que eu sou uma deles!), fãs do Mike da Gaita (parece uma coisa inventada mas é verdade, tanto as ameaças, como a existência de um artista com esse nome).

Já aprendi duas coisas (aprendo devagar):

1 – Se não quisermos ofender ninguém, não podemos fazer humor sobre absolutamente nada. Não há nenhum tema neutro, estilo Suíça. Até gozar com um prato de tremoços pode provocar a ira de alguém, que leve muito a peito as questões das leguminosas.

2 – As pessoas levam-se demasiado a sério.

Gente como estes terroristas, que agora andam a monte, fugindo da polícia francesa como quem foge de uma anedota do António Sala (eles não gostam mesmo de nenhum tipo de humor, seja de salão ou mais nonsense), juntam ao facto de se levarem muito a sério, não tolerando ser alvo do gozo de ninguém, o facto de falarem, e atirarem, em nome de um profeta que não lhes passou procuração nenhuma. Nunca li o Alcorão, confesso (e já que estamos numa de confissões, também não li a bíblia, e não aceito ser castigada com não sei quantos Pai Nossos), mas basta falar com qualquer muçulmano civilizado (temos tantos no nosso país) para eles nos confirmarem que este exército escolheu o comandante errado.

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