Menina não entra

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Trabalho com crianças há muitos anos e gosto do que faço. Dou o meu melhor para as educar correctamente, mas elas ensinam-me muito mais a mim. 

Esta semana tive uma reunião em que alguém dizia que as crianças são um espelho dos adultos, eu não poderia concordar mais. As crianças aprendem a cada minuto da vida, absorvem, observam e aplicam o que vão retendo. E é por isso que, ao contrário da crença comum, precisamos de ter cuidado com o que dizemos e fazemos perto delas, desde cedo.

Nem sequer estou a falar de palavrões, falo de algo muito mais grave. Aquela piada racista ou xenófoba, aquele comentário machista, aquele insulto em tom de brincadeira.

Elas ouvem e reproduzem.

O bom tempo chegou, e com ele os jogos de futebol no recreio da escola. Raramente as raparigas são incluídas, mas também mostram pouco interesse. Só que, no outro dia, uma quis jogar e a reacção de um dos meninos foi gritar, espernear, protestar e dizer que as meninas não podiam jogar futebol.

Claro que a menina jogou, claro que tentei explicar o melhor que podia que as meninas também tinham pernas e pés e que podiam chutar a bola tão bem como ele, que todos eram alunos da escola e todos tinham os mesmos direitos e deveres. Mas aquela raiva, aquela frustração… não me saem da cabeça.

Há também um menino que faz ballet. É um miúdo sensível, com uma inclinação clara para a arte e os pais sabem explorar isso sem preconceitos, mas os comentários são constantes. Porque ballet é “coisa de meninas”.

Como se “coisa de meninas” fosse sujo,  indigno. 

A menina não pode jogar futebol porque ia estragar a brincadeira. O menino não pode fazer ballet porque é ridículo. Reparem, em ambos os casos o problema é a ligação com o feminino. “Coisa de meninas” é algo menor, inferior aos homens. E se o futebol se tornar “coisa de meninas”, a brincadeira fica estragada.

Claro que as crianças não nasceram com estas ideias, alguém as ensinou a separar “coisas de meninas” de “coisas de meninos”. E se ninguém lhes disser o contrário, crescerão a acreditar nisso. Um dia, podem até escrever para um jornal e dizer que o papel da mulher se resume à qualidade de mãe e cuidadora do lar. Podem acreditar na existência de “coisas de meninas” e “coisas de meninos” até à idade adulta, podem viver uma vida inteira de preconceito com essas limitações fictícias.

E isso é tão triste que dói.

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