Quem tem medo de Ana Cássia Rebelo?

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Conheci os textos da Ana Cássia Rebelo há alguns anos, através da partilha de uma amiga do blogue Ana de Amsterdam, um diário íntimo, ficcionado, da vida de uma mulher. Não foi preciso mais do que uma frase para nunca mais deixar de ler. É desse tipo de textos que estamos a falar, queria deixar isso claro. Como ela consegue, não sei. Nem sei se consigo explicar a atracção desta escrita, a força desta linguagem.

Vários textos do blogue, provavelmente os mais representativos, foram coligidos e publicados em livro. A selecção esteve a cargo do professor e crítico literário João Pedro George que também assina o prefácio da edição (Ana de Amsterdam, 2015, Quetzal).

 

Quem é esta mulher?

«Ana Cássia Rebelo trabalha das nove às cinco e meia da tarde, como jurista, em Lisboa, numa instituição pública. Às cinco e meia da tarde inicia o segundo turno – cuidar dos filhos –, que se prolonga até por volta das onze da noite: dar banhos, ajudar com os deveres da escola, fazer o jantar. (…) Por vezes, mais do que seria saudável, tudo isso resulta em insatisfação. Sente que a rotina dos dias iguais e os tédios do emprego formam uma circunferência em torno de si, que a cercam dentro de muralhas. Nessas alturas, apetece-lhe fugir, descarrilar, não possuir eira nem beira, conhecer outra gente, ter outro trabalho, converter-se noutra pessoa, sentir a vertigem das mudanças bruscas. (…) Assim que a casa sossega, ultrapassada a barreira dos afazeres domésticos, livre dos protestos e da tirania dos filhos, Ana Cássia Rebelo senta-se em frente do computador e escreve.»
pp. 7/8

 

Felizmente, escreve. Para nossa libertação, escreve. Porque é libertador ler estes textos. Acima de tudo julgo que é isso. Estranhamente, muita desta escrita é sobre a prisão que significa ser mulher. A clausura das rotinas, do tédio, do corpo. A tristeza, a depressão.

«Uma vez por mês, esta a exacta periodicidade da sua visita, chega-me uma tristeza muito grande. Não traz desespero nem pensamentos sombrios; (…) A tristeza só traz tédio, escava um buraco no meu corpo, ali se aninha e descansa. Anda comigo durante dois ou três dias. Depois, como chega, vai-se embora.»
p. 139

 

Ocorre-me a expressão que uma colega da escola usou para caracterizar a poesia de Adília Lopes – ‘incomodamente feminina’ – e noto como são incómodos, e femininos, estes textos. Apetece-me sabotar a linguagem e dizer que Ana Cássia Rebelo é um mulherão. Uma mulherona. Mulher até dizer chega. Que despudor, Ana.

«Tiro um penso higiénico. Está dobrado em três, dentro de um rectângulo de plástico azul-escuro. É um penso bastante comprido, reforçado, com abas largas; quando o aproximo do nariz larga um leve cheiro asséptico. Passei a ter um fluxo abundante, hemorragias torrenciais, diluvianas, causadas, segundo me explicou a médica bailarina, por um mioma com três centímetros de diâmetro. (…). Ao abrir a luz reparo nos lençóis tingidos de vermelho. São várias manchas de um vermelho aberto, muito vivo. Fico durante alguns instantes a olhar para a cama, sem saber muito bem o que fazer. (…) Só depois me lembro de que estou menstruada. Continuo a olhar para os lençóis da cama. Não sinto repulsa, nem nojo, nem sequer estranheza. Afinal, é apenas o meu sangue.»
pp. 213/214

 

Ai que horror, que depressão. É tudo assim, tão sujo e triste? Ah, não, há muito mais. Há histórias indianas, da família goesa, há devaneios românticos e sexuais (há muito sexo e descrições gráficas, se querem mesmo saber), há muita literatura (as sugestões de leitura são preciosas), episódios do quotidiano (como em qualquer diário que se preze), personagens recorrentes, sonhos, pesadelos, consultas de psiquiatria, anti-depressivos, vícios, desesperos, deambulações.

 

Ao ler estes textos, sinto-me íntima, próxima, quase amiga. Terrível ilusão.

«Estranho a facilidade com que as outras mulheres se tornam íntimas. Pouco depois de se conhecerem, trocam beijinhos, tratam-se por tu, contam segredos de fêmea, partilham ralações domésticas enquanto comem minipratos de lulas recheadas sobre mesas de fórmica. Não tenho vocação para a comiseração do género e não aprecio a devassa, assim, em pedaços de névoa cheirando a gordura, da vida familiar. A intimidade que essas mulheres partilham não me interessa, parece-me banal e ordinária; envergonha-me. »
p. 140

 

Bebemos ao menos um café, Ana?

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