LUTO MAS SEM LUTO por Maria Celeste Vieira

389

 

A propósito do dia dos finados, lembrei-me de um episódio que vivi na primeira pessoa, quando tinha 15 anos.

Um dia a seguir às aulas – cerca de duas semanas após a morte da minha mãe – fui à escola da minha irmã buscar as chaves de casa porque tinha esquecido as minhas. Na portaria da escola, pedi, gentilmente, à funcionária que fosse chamar a minha irmã que se encontrava em sala. Nos minutos de espera, enquanto conversava com a minha amiga J., a referida funcionária dirige-se a mim, nestes termos:

‘- Ouve lá, mas tu não sentes a morte da tua mãe? Andas vestida de vermelho!’

Aquela frase caiu-me como um murro seco no estômago, daqueles de ficar sem ar. Só pensava que o andar vestida de vermelho poderia ser equivalente a um crime hediondo, do tipo dos que são retratados nos filmes de Hitchcock. Acho que naquele momento fiquei em choque, num estado meio alucinado, pois não abri a boca enquanto a minha amiga J., esbaforida, tentava chamar à razão aquela mulher que nem razão nem muito menos sensibilidade aparentava.

 

A tal roupa da ‘cor – que – parece – mal – vestir – quando – morre – alguém’ era, afinal de contas, bordô (como se isso interessasse!) e foi a última coisa que a minha mãe me ofereceu. Foi-me dada horas antes de ela falecer. Horas antes de imaginarmos que o mundo seria virado ao contrário. Horas antes da perda (dessa nem sequer vou falar), e de que para além dela, ter começado um sem número de julgamentos e requisitos de comportamento.

Sente mais a ausência quem veste preto ou quem fica fechado em casa?

Quem vai ao cemitério mais vezes e enfeita melhor a campa?

Parece mal sair com amigos, divertir-nos?

Viver…?

 

Estou de luto, mas sem luto. Porque a dor é minha e será para sempre, independente da cor da blusa. Continuar a viver também é fazer o luto. Porque a vida segue e tenho o direito (e até a obrigação) de ser feliz.

 

Porque não começarmos a pensar um bocadinho como os mexicanos (e outras culturas) que tratam o luto e os mortos de frente, sorrindo para eles? Segundo a tradição mexicana, nos primeiros dias de novembro, os mortos têm a permissão divina para visitar parentes e amigos, os quais tentam homenageá-los, enfeitando as suas casas com flores e cozinhando os pratos favoritos dos que já partiram.

 

Vida com cor! Porque o que vai cá dentro não tem de obedecer a um círculo cromático…

 

Maria Celeste Vieira

Partilhar
Artigo anteriorMULHERES DE PORTUGAL por Mónica Mota
Próximo artigoPROJETO A(r)MA-TE
Capazes é uma Associação Feminista que tem como objectivo promover a igualdade de género.