Liberdade de género!

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A noção de que existe uma tendência natural de assunção de papeis entre homens e mulheres – os homens são mais destemidos, aventureiros, inteligentes, criadores, enquanto as mulheres são mais analistas, organizadoras, caseiras, pacificadoras – decorre essencialmente de uma estrutura social patriarcal que as limitava – proibia, impedia, punia – na participação social que extravasasse o doméstico.

Ainda que quiséssemos responsabilizar a biologia – mãe de costas largas para os disparates da humanidade – bem nos confrontaríamos com alguns dilemas:

– Porque razão fizeram os homens leis que impediram, ativamente, as mulheres de votarem? Qual a conexão (biológica) entre ter uma vagina e o voto? Ainda que se entendesse que o voto deveria ficar reservado para os chefes de família (pessoas letradas com responsabilidades sociais), o exemplo de Maria Beatriz Ângelo é revelador: era uma chefe de família (viúva), médica de profissão, e votou em 1911, graças à presunção machista da neutralidade da língua. Logo a seguir, perante tal ousadia, os homens (legisladores) mudaram a lei, garantindo que apenas eles (os homens) poderiam votar. Como responsabilizar a biologia nesta história?

– Porque razão fizeram os homens leis que impediam as mulheres de ficarem com os seus filhos em caso de divórcio (ou, até, de se divorciarem)? Tanto dita aqui a biologia o inverso que ainda hoje – e por causa de um excessivo apego à biologia – estamos longe da parentalidade paritária que se deseja (para quem o deseja) e da igualdade (possível, quando desejada) entre pai e mãe na vivência da parentalidade. Se fosse a biologia a responsável, faria então sentido manter as crianças com a mãe em caso de divórcio. Mas a lei dizia o contrário.

Por ventura, estes casos explicam-se pela razão mais óbvia: para manter as mulheres na submissão, oprimidas, obedientes, sem acesso ao poder, sem ação, sempre com medo de perderem os filhos. Para manter e perpetuar o domínio do homem sobre a mulher. E que culpa tem disso a biologia?

Bem assim poderíamos continuar…

Esta (falsa) noção histórico-cultural decorre também do apagamento sistemático do nome de mulheres ao longo da história. É que sempre houve mulheres a desafiar a norma, algumas indo ao ponto de se disfarçarem de homens, de rejeitarem a sua “condição feminina”, para participarem em posição de igualdade. Para estas, de um modo geral, a história guardou-lhes o apagamento. O esquecimento. O anonimato.

O apagamento de mulheres guerreiras: o caso dos vickings é paradigmático, povo historicamente visto como integrando apenas guerreiros homens, vindo agora a descobrir-se que num dos túmulos “guerreir@s” se encontrava um cadáver feminino.

O apagamento das mulheres cientistas, médicas, matemáticas (como Hipátia, assassinada, ou Katherine Johnson, que esperou mais de 30 anos pelo reconhecimento), filósofas (aqui), artistas (aqui), professoras. Poucos são os nomes de mulheres, nestes papeis, que constam dos manuais escolares, dos livros de história, de medicina, de filosofia. Da memória coletiva. Muitas foram sistematicamente descredibilizadas (Como Safo de Lesbos, injustamente associada à depravação sexual). Poucas são celebradas.

O apagamento das mulheres na política e nos movimentos revolucionários. Pois mesmo sendo limitadas, algumas foram centrais nestes movimentos.

O apagamento global que, na perceção geral, reservou para as mulheres um papel que é simultaneamente rigidamente definido (mulher, mãe), localizado (em casa) e invisível (quando ousava sair de casa).

O que o feminismo pretende não é que as mulheres rejeitem serem princesas para serem CEOs. O que o feminismo pretende é que cada menina-mulher possa escolher, de acordo com as suas preferências, em liberdade, se quer ser princesa ou CEO. Se quer ter filhos ou não. Se quer ficar em casa a tomar conta dos filhos, ou não. Se quer ir para uma carreira militar ou ser professora. Se quer usar saias ou calças. Se quer ter cabelo comprido ou curto. Se quer vestir rosa ou azul (ou amarelo). O feminismo acolhe e defende todas estas mulheres, quaisquer que sejam as suas opções.

Ora, inevitavelmente, o feminismo deve querer (também) que cada menino-homem possa escolher, de acordo com as suas preferências, em liberdade, se quer ser príncipe ou CEO. Se quer ter filhos ou não. Se quer ficar em casa a tomar conta dos filhos, ou não. Se quer ir para uma carreira militar ou ser professor. Se quer usar saias ou calças. Se quer ter cabelo comprido ou curto. Se quer vestir rosa ou azul (ou amarelo). O feminismo deverá, então, acolher e defender, todos estes homens, apoiando e louvando todas as suas opções. Em liberdade e pela liberdade.

O que feminismo pretende, assim, é que não haja uma associação rígida – automática, obrigatória, opressora, punitiva – entre um género e uma cor, aspeto, aspirações, vocações, profissões, opções de vida. Não pretende abolir o género. Pretende abolir as diferenças impostas – por obrigação – às pessoas apenas porque fazem parte (ou são para aí remetidas) de um género. E pretende, claro, que a igualdade perante a lei não dependa do género (biológico ou social), mas das características de cada um, dos seus especiais deveres e direitos em função da posição que ocupam (por opção, não por nascimento) na sociedade.

Em suma, quando se lê igualdade (de género), talvez seja mais esclarecedor falar de liberdade de género. E, se estamos a falar de liberdade de género, estamos a falar de um valor universal, tão importante para mulheres, como para homens.

Há dúvidas de que deveríamos ser todos/as feministas? Ou não queremos, todos/as, ser livres?