Liberdade

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Achei, ingenuamente, que já tínhamos ultrapassado a fase em que uma mulher era criticada por mostrar o corpo, tendo em conta que o movimento feminista se tem manifestado com o lema “o meu corpo, as minhas regras” desde há tempos longínquos. Na verdade, nem acredito que ainda temos de falar sobre mamas.

Uma das capas da revista “Cristina” tem uma mulher a levantar a camisola, mostrando as mamas. É uma capa poderosa, não só pela coragem de mostrar o corpo, de forma desafiadora, como também por se tratar de uma modelo plus-size, cujos seios estão fora do padrão de beleza e nem sequer estão erotizados. No entanto, os comentários mesquinhos e misóginos, também por parte de mulheres, não se fizeram esperar. Muitas se manifestaram dizendo “isto não é liberdade”, “a mulher é muito mais do que as mamas, não preciso de as mostrar para ser livre”, “é feio”, “liberdade não é libertinagem”, qualificando a capa de “vulgar” e culpando a própria modelo pelo eventual assédio sexual que venha a sofrer: “com certeza que não se vai queixar, pois não? É que não pode e com estas iniciativas estúpidas tiram a credibilidade às vítimas reais”. Este último comentário é especialmente cruel, uma vez que reproduz a narrativa de que, se a mulher está a expor o corpo, estará a pedir para ser assediada ou violada e, por isso, não tem legitimidade para apresentar queixa.

A liberdade de uma mulher não é igual à de outras. Cada uma manifestará a sua liberdade da maneira que entender, quer esteja vestida ou nua – o que não pode acontecer é criticar outra mulher pelas suas escolhas. Ninguém está a impor um padrão de comportamento ou a definir o que é liberdade.

O nosso corpo não é vulgar. O nosso corpo não é um objecto sexual, que provoque nojo, escárnio ou desdém. As mesmas mulheres que acusam a modelo de vulgaridade e de promover a sexualização do corpo feminino esquecem-se que têm um par exactamente igual ou muito semelhante dentro do soutien. Será que também consideram o seu corpo nojento?

Ainda que estas mulheres não admitam, está subentendida a ideia de que existem seios mais “bonitos” que outros – se em vez da “Cristina” fosse a “Vogue” e na capa estivesse uma modelo magra e de seios firmes, o discurso não seria tão agressivo. Claro que não existem seios feios: todos são dignos de ser celebrados, tenham a forma ou o tamanho que tiverem. A vossa vergonha relativamente aos seios alheios, orgulhosa e livremente expostos, mimica a relutância de se olharem ao espelho e conviverem com as vossas próprias imperfeições.

Percebemos a necessidade de nos familiarizarmos com a nudez feminina quando os mamilos são censurados nas redes sociais ou mesmo em exposições de escultura. O Instagram dedica-se incansavelmente à eliminação de fotografias que mostrem o mais inofensivo mamilo feminino, por ser considerado imoral e indecente, mas o mamilo masculino não conhece a mesma sorte, sendo até glorificado. É também contra a dualidade do mamilo que o feminismo se manifesta.

Entre os comentários que gritam vulgaridade e clamam indecência, proliferam os que dizem que “esta liberdade” não as representa e que uma mulher é muito mais do que um par de mamas. Esta é mais uma crise de identidade que o movimento feminista atravessa: a superioridade intelectual de umas mulheres em relação a outras. Uma mulher pode manifestar os seus ideais através da citação de textos feministas ou manifestar-se na rua, de seios descobertos e bamboleando o corpo. Podemos ser a Simone de Beauvoir ou a Anitta – e ambas as escolhas são legítimas, pois são rostos da liberdade que não colidem um com o outro. Uma mulher não é superior a outra por ter mais estudos, e é por isso que ler comentários que menorizam a mulher que escolhe mostrar o corpo custa tanto – principalmente se a mulher que se autoproclama intelectual for branca, privilegiada e estiver dentro do padrão. É tão-só uma ramificação do machismo, o que dá, apropriadamente, carta branca a homens que hipocritamente se dizem feministas para utilizarem esse mesmo discurso. Todas já ouvimos um homem dizer “meninas, vocês são muito mais do que um par de mamas, valorizem-se” e ser elogiado pela eloquência. E voltamos à estaca zero, em que suplicamos pela aceitação masculina, em vez de buscarmos a nossa aceitação e amor-próprio.

É um discurso que deve ser expurgado do movimento feminista, pois é uma linha de pensamento que não encontra mais lugar numa sociedade que se quer diversificada e livre de preconceitos.

Obviamente, somos muito mais que um par de mamas. É justamente por isso que as mostramos sem vergonhas, isto é, queremos afirmar que este corpo só nos pertence a nós e não deve ser criticado, torturado, judiado e objectificado por terceiros. Não podem tocar nas nossas mamas sem a nossa permissão, não podem obrigar-nos a esconder-nos nem ofender a nossa dignidade por dispormos do nosso corpo – e, por conseguinte, da nossa liberdade – como bem entendermos. 

São ofensas destas que explicam porque é que o corpo feminino ainda é olhado com vergonha e a razão pela qual as vítimas de revenge porn são expulsas dos locais de trabalho. E é por isso que capas destas, com mulheres destas, fazem tanta falta. Faz falta quebrar o tabu sobre os nossos corpos. Podem chamar-lhe um acto de marketing, mas não é desprovido de feminismo por isso: todos sabemos que o Feminismo e os direitos LGBTQIA+ vendem. E isso não é algo negativo, pois só através destas iniciativas conseguimos alguma representatividade.

Esta capa não objectifica a mulher, que LIVREMENTE mostra os seios, sem impor a sua liberdade às outras mulheres. Aquela mulher está simplesmente a mostrar qual é a sua ideia de liberdade, que pode – ou não – ser a vossa. Há contextos dúbios e sexualizados, mas este não o será, certamente. Esta capa é Liberdade.

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