LET IT BE

1192

 

 

Há muito tempo que estou para te escrever. A ti, a mulher que está aí dentro, sei que me escutas. Por vezes, ouves com ruído de fundo e acabas por não entender a mensagem, que é tão simples. Talvez demasiado simples para que tu possas acreditar que é possível.

 

Está tudo bem. O mundo, cá fora, nem sempre é justo. Mas está tudo bem. A vida, muitas vezes, pede muito, exige demasiado e há pessoas, como tu, que sabem responder. E quase ficam viciadas na exigência (o quase é um eufemismo, neste caso).

Os sobreviventes são assim, eu entendo-te. Estás aí dentro e construíste o teu abrigozinho para te proteger do temporal quando as tragédias bateram à porta. Soubeste encontrar as pedras e os ramos necessários para que esse abrigo fosse seguro. Foste valente, como ninguém. Aguentaste as intempéries sem te queixar e ainda sair para salvar outros como tu – um bocadinho mais frágeis. Conseguiste sobreviver aos tsunamis e aos tornados. Mas já chega, a tempestade já passou.

Chega de viver em modo sobrevivência. Em modo voo. Em modo ‘será que está mesmo tudo bem?’. Os sobreviventes que lerem isto, hão-de reconhecer a síndrome – é algo que se cola a nós. Vem com o kit sobrevivência e custa a despegar.

O modo sobrevivência é espectacular; tem a sua função. É graças a ele que estás cá hoje, sã e salva, mulher feita, com valores e com garra para o mundo. É útil, cirurgicamente. Mas já não precisas do kit (e quando voltares a precisar, ele aparecerá automaticamente), podes largar.

 

Larga o apego, a ansiedade, a exigência. Sê paciente contigo. Podes deixar ir, deixar rolar… Let it be… já diziam os Beatles e tinham toda a razão. Porque é que tu, muitas vezes, não acreditas? Deixa o controlo, a preocupação, a vontade de fazer pelos outros. A frustração que sentes quando não sabes controlar os impulsos. Também podes fazê-lo. Também tens direito a fazer merda, de vez em quando. Podes cagar no assunto. Podes relaxar e pousar a mochila. Vai buscar a tua maravilhosa capacidade de rires de ti própria. Sabes usá-la tão bem, ou já te esqueceste?

 

Não te leves tão a sério. Não leves a vida tão a sério.

Let it be