INOCÊNCIA

2440

 

Durante muitos anos Dina foi prostituta.

Conheci-a em miúda, para nós era a mulher mais bonita que tínhamos visto na vida. Na nossa inocência, a minissaia vermelha de pele com colete igual, a blusa com enorme decote e os saltos agulha eram o expoente máximo da beleza.

Aliados à simpatia e carinho que nos dispensava, era quem queríamos ser quando fossemos grandes, nós, as miúdas. Para os rapazes era assim a mulher dos seus sonhos. Lembro-me de nos fazer tranças, sentada nas escadas da entrada do pátio onde nos reuníamos depois da escola.

 

Aparecia por lá quase sempre, com pacotes de leite e bolachas caseiras, distribuía por todos e ficava ali a ensinar-nos a maquilhar, pentear e a dar-nos sábios conselhos, regra geral para termos cuidado com os homens. Fazia-nos rir.

Depois crescemos e percebemos que os constantes carros parados à porta da Dina eram dos seus clientes.

Sozinha, com parentes longe de Lisboa, sobreviveu a vender o corpo. Era o que tinha de melhor, dizia ela muita vez.

Mas um dia encontrou alguém, apaixonou-se e deixou a prostituição, dedicou-se ao lar, ao marido, arranjou um trabalho e era feliz. Achávamos que sim.

Anos mais tarde, em visita à família, vi uma ambulância e carros da polícia na rua. Muita gente, conversas, gritos. E a Dina saiu numa maca.

 

Vim a saber que o marido lhe batera. Que lhe batia vezes sem conta.

Quando a fui visitar ao hospital, onde a encontrei bastante ferida e sem a juventude e vivacidade de outrora, conversámos.

Soube então que nunca foi verdadeiramente feliz no casamento. Durante uns meses talvez. Depois passou a ser agredida e humilhada constantemente. Já mal saía de casa, tinha vergonha, tinha a vergonha que nunca tivera como prostituta.

 

Dina largou o marido depois de fazer queixa à polícia e pedir ajuda a uma instituição. Só voltou para casa dela um ano depois, porque tinha medo. Depois de voltar, foi ameaçada, era perseguida na rua, em casa, fez queixa muitas vezes, vezes demais, mas o marido nunca foi preso. Perdeu o medo, não cedeu, enfrentou-o inúmeras vezes, foi salva outras tantas por vizinhos.

 

O destino encarregou-se de ajudar. Durante uma discussão, ele agrediu quase até à morte outra pessoa, como tinha feito com Dina, mas daquela vez acabou finalmente por ser preso, o que permitiu a Dina voltar a ter paz. Renasceu e sobreviveu.

Agora vive na sua casa, com algum dinheiro que tinha amealhado. Nunca o marido soube desse dinheiro. E costuma estar à janela a conversar com quem passa na rua, de cigarro na mão (que nunca fuma), e sempre sorridente e feliz.