Há sempre qualquer coisa

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Primeiro era o bigode. Se me dava personalidade, também me atormentava, ora porque era preto, ora porque era louro e brilhava ao sol. Se o tirasse com cera iam reparar e gozar comigo na escola. Se o rapasse iam ganhar, saber que cedi, que lhes dava razão, que uma mulher de bigode era coisa feia e deselegante, que ser peluda me diminuía de alguma forma, como se ser peluda fosse uma falha de carácter.

Fiz a depilação.

Depois foi a banha, a celulite, os rebordos que saltavam por cima das calças apertadas. As mamas que eram grandes demais, o queixo duplo, a anca larga e o rabo.

Chateava-me correr e sentir que tudo abanava, que toda a gente estava a olhar para o meu traseiro gordo e flácido a saltitar, ansioso por fugir da prisão das calças de licra. Culpava-me pelo amor de comer, pelo fraquinho por doces,  por cada visita à fast food.

Emagreci.

Agora são as mamas. Alguém me disse no outro dia que as tenho descaídas, provavelmente por ter emagrecido tanto e porque continuo a amamentar um ser de 15 meses. Quando me baixo, depois de dar mama, vejo-as transformadas, secas, vazias. Os melões redondos deram lugar a duas passas de uva moles. Que metáfora genial para a brutalidade da vida.

Dizem que se resolve com um bom soutien, e eu até tenho bons soutiens, daqueles que apertam e empinam e põem tudo no lugar. Usei-os a vida toda, ora para reduzir ora para aumentar, domesticando as mamas aos caprichos da moda alheia.

Só que esses soutiens fazem-me doer as mamas, que se vão enchendo de leite e mudam de tamanho várias vezes ao dia. E estas mamas criam esse leite, que é fonte de alimento para a minha filha, que a protege de doenças, que lhe dá conforto. Foram estas mamas, ora melões grandes e redondos, ora passas moles e flácidas, que a ajudaram a crescer e que nunca nos falharam.

Porque hei-de querer mudá-las?

Ouvir dizer que tenho as mamas descaídas devia ser como ouvir dizer que sou morena: uma constatação, uma realidade, uma mera observação.

Nada mais.

Mas, de alguma forma, ouvir dizer que tenho as mamas descaídas dói, como se ter mamas descaídas fosse uma vergonha, me tornasse menos merecedora, menos mulher. E, apesar de saber que tudo isso é ridículo, que o soutien me vai magoar, que vai ser desconfortável e apertar… a tentação de o tirar da gaveta existe. Não porque me incomodem pessoalmente as mamas descaídas mas porque, no fundo, nos ensinam que as nossas mamas não são nossas e o nosso corpo é de todos, alvo de escrutínio e comentários alheios.

E é nessa altura que percebo quem queimou soutiens. Porque, de facto, as mamas são minhas, são saudáveis e fazem tudo o que delas é esperado. Não faz sentido magoar-me só para me encaixar num ideal qualquer que alguém inventou por mim. As minhas mamas e eu merecemos mais.

Por isso vamos lá despachar o assunto:

O meu nome é Ana. Sou morena e dizem que tenho mamas descaídas.

Vou só ali imprimir uns quantos cartões de visita, a ver se tiramos isto de cima da mesa quanto antes e começamos a preocupar-nos com coisas realmente graves, como o aquecimento global e assim. Até porque cada vez mais me convenço que a aceitação do próprio corpo é um processo de desenvolvimento pessoal. Assim que resolvesse o complexo das mamas descaídas (se resolvesse) iria encontrar outro defeito terrível com que me preocupar, e tenho formas muito mais produtivas de ocupar o meu tempo…  imagine-se, tentar recuperar o milhão de horas de sono que perdi nos últimos dois anos.

Há que ter prioridades.