GÉNERO É SENTIR por Magda Moutinho

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Género é Sentir

“Pai, quero falar-te de uma ideia” – interrompi assim o nosso almoço numa esplanada cheia de sol. Estávamos em Fevereiro de 2014 e, nesse mesmo dia, nasceu o Queer em Lisboa. Primeiro mostrei-o ao meu pai, depois ao mundo.

De modo a quebrar o preconceito que existe à volta da imagem da mulher queer (queer é um termo usado para designar pessoas que não seguem o padrão da heterossexualidade), decidi fotografar esta comunidade, Lisboa afora. Com este simples projecto, mostrando caras e vidas revelo como, de facto, é um grupo diversificado. É tempo de deitar por terra a ideia de que a lésbica, por exemplo, segue na sua aparência somente padrões ditos como masculinos. Não. O grupo de mulheres lésbicas é diversificado, como o grupo de mulheres queer o é. Há tantas formas de Ser e estas fotografias expressam isso: mostram a verdade. Cada mulher tem a sua forma de se mostrar, de se expressar, a sua forma de existir. Para quê o preconceito, para quê generalizar?

Comecei por fotografar mulheres lésbicas. Depois, mulheres bissexuais. A seguir, pansexuais. E, certo dia, conheci a Dani. A Dani é uma mulher transexual. Não se sentindo um homem, iniciou a sua transição física: a materialização daquilo que sente – Ser Mulher.

Foi aí, nesse mesmo dia, que comecei a pensar sobre isto de ser mulher. Ser Mulher.

Pesquisei e informei-me. Esmiucei as questões biológicas, éticas e quase filosóficas. Mas decidi parar de o fazer. Quis antes ouvir a Dani. Ela mostrar-me-ia muito mais do que qualquer teoria corrida ou doutrina. Ela é real. Existe. O que me interessa é o que sente e o que sentiu desde sempre. Há coisa que faça mover mais do que isto? E este Sentir Ser Mulher, move tanto. Move tudo.

As grandes palavras dela foram:

“Pela minha experiência, principalmente em redor do tema de género, aprendi que vale a pena questionar não apenas o que é ser Mulher, mas também o que é ser Homem ou, o que é ser ambos. Definitivamente, aprendi que acima do género está ser uma pessoa, um ser com uma identidade. Porém, algo que sempre senti foi afinidade/empatia no que toca a Ser Mulher. Nunca foi apenas uma questão de expressão. Passei pelo processo de tentar perceber se era uma questão de expressão… mas não era. Não era uma questão comportamental, pois acredito que um homem e uma mulher podem adoptar os mesmos comportamentos (bem como expressão), isso não os define no género. Não me choca um homem de saias e não me choca uma mulher sem maquilhagem (estereotipando). Não me choca uma mulher mais sintética nas palavras e não me faz confusão um homem sentimentalista (ainda bem que existem). Tudo isto acaba por ser exterior ou imediatamente exterior, a forma como a tua personalidade se dispõe para a sociedade. Sempre existiu algo que “no meu interior” me fazia ter uma ligação com a estrutura feminina que não consigo ter com os rapazes. Torna-se difícil explicar, pois as palavras são simples. Porém, posso fazer uma analogia (que muitas vezes funciona). Supõe que tens uma pessoa (género indefinido) e um animal (por exemplo o teu gato); tu és amiga dos animais, compreendes o teu gato, gostas dele, mas, no entanto, existe uma barreira que te permite distinguir entre o gato e a pessoa que está ao lado e, por empatia de espécie, é da pessoa que te sentes mais próxima (no sentido empático, de conseguires viver as suas emoções). Posso transportar este exemplo para um rapaz/rapariga, há uma empatia por semelhança, por querer estar, sentir Ser Mulher.

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