FEMINISTAS: ONDE ESTAVAM COM A CABEÇA?

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Apenas quero ser reconhecida. Como mulher.

Nascer [mulher]. Crescer mulher [em liberdade]. Viver mulher [em liberdade]. O que quer que isso seja, para mim.

É engraçado que se ache tão natural assumir o masculino como género neutro, sem reflexão ou dúvida metódica. É engraçado, porque ouvi uma mulher explicar num programa de televisão – para separar e esclarecer as águas – que nunca pensava que era mulher no seu trabalho. Quando era advogada, era um[?]  advogad[?] só, e nunca uma mulher. Falava como se quisesse livrar-se de um familiar inconveniente que apareceu de surpresa durante um jantar com amigos importantes. “Sim, a Ana é minha prima, mas coitada, veio das berças, não lhe liguem; sabem como é… deveres familiares”. É engraçado, porque não é a única. É um discurso comum em mulheres que se consideram profissionais de sucesso. Deixam a mulher de lado na sua vida profissional, garantem. Que é como quem diz “sou mulher, eu sei, é péssimo e fonte de imensa vergonha, mas não se preocupem; quando advogo [inserir profissão], deixo a mulher em casa, que é o seu lugar.” É engraçado, porque nunca ouvi um homem dizer o mesmo. “Sou juiz, mas no tribunal nunca penso que sou homem, deixo o homem em casa”. “Sou médico, mas no bloco cirúrgico, esqueço-me que tenho pénis.” É engraçado, porque não precisam de dizer. Afinal, o masculino é o género neutro, a normalidade, o padrão ideal e a medida ideal de atuação humana. Ser mulher é algo ligeiramente menos. Incómodo. Persistente. Inconveniente. Contagioso. Exige medidas de contenção, não vá a nossa condição de mulher azedar a sopa, que é como quem diz. E nenhuma se assume como feminista [embora assumam que é mais difícil para as mulheres, e que ainda há muito por fazer] não vá o diabo tecê-las. Que é como quem diz, não vá o meu feminismo fazer baixar a quota da minha reputação no mercado dos homens sérios. Com letra grande.

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