Família: amor e violência

1014

Diogo Faro, humorista, vlogger, e
autor da página do Facebook “Sensivelmente Idiota”, fez um apelo no Instagram
pedindo que quem tivesse sofrido assédio sexual lhe enviasse mensagens. Em
resposta, recebeu
mais de 2000 mil relatos de experiências pessoais. Grande parte destas experiências
– algumas foram já divulgadas – ocorreu nas famílias. Há dois traços comuns nestas
histórias, que são característicos dos abusos sexuais e da violência ocorre na
família: a descredibilização da vítima (tantas vezes criança) e o
silenciamento.

Estudo violência sexual contra
crianças desde 2002 e, por vezes, nas aulas ou em conferências, perguntam-me:
como é possível que uma mãe, uma avó, uma tia (um pai, um irmão, um tio) ouçam
queixas da criança, recebam estas historias das suas filhas ou dos seus filhos,
e não façam nada? Como é possível que escolham não acreditar, tantas vezes sem
qualquer investigação ou cuidado, na criança? Pior, como é possível que, mesmo
acreditando, optem por silenciar a criança?

É possível, por causa do sentido e
do valor social que damos à instituição da família. A família foi, durante
séculos (e ainda é, de certo modo), o pilar da sociedade. Faz-se tudo pela
família, certo? Assim, em nome da sobrevivência da família, em nome da
constância do casamento, em nome da paz podre que sustenta a aparência de
tantas “famílias felizes”, as queixas de crianças vão sendo silenciadas. Tal
como se auto-silenciam tantas mulheres (e alguns homens).

A família é o lugar de todas as
esperanças, de todas as expectativas e de muitas narrativas fantasiosas. É o
lugar onde aprendemos o que podemos e não podemos fazer, como nos devemos
comportar. É o lugar onde somos confrontad@s, pela primeira vez, com a força da
autoridade (ou com a autoridade pela força, que é a regra ainda em muitas
famílias que recorrem aos castigos físicos). Devia ser um lugar de afetos
positivos, de autonomia, de liberdade, de respeito, de segurança. Mas é, tantas
vezes, um lugar de repressão, desprezo, ausência de afetos, abandono, abuso, violência.
Para quem cresce e vive nestes lugares, a família torna-se sinónimo de medo e
opressão. Estas pessoas têm o direito de ver reconhecida a a sua realidade nos
discursos sociais. Se insistimos na construção de uma história absoluta da
família como espaço de amor e segurança, estamos a reforçar este silenciamento.
E estamos a excluir estas pessoas como protagonistas do debate social. São
vítimas apenas, alvos de compungência. Mas não lhes reconhecemos o direito de
definir sentidos sociais. De dizerem, em voz bem alta e sem vergonha: a
família, para mim, é e sempre foi um lugar de horror!

Neste contexto, e face a 13
pessoas mortas em poucos meses de 2019 (uma delas, criança), Raquel Varela e
Helena Matos escolhem utilizar os seus espaços de intervenção e participação
publica desvalorizando a violência doméstica. Não tendo discursos coincidentes,
é mais o que as une do que o que as separa. Ambas parecem desconsiderar a
violência doméstica como um problema sério no país, preferindo salientar, como
problemas graves, o terrorismo, tiroteios em escolas, a queda de escolas ou a
violência contra professores. Parecem partilhar também o desejo de repor (em
nome de um passado idealizado que nunca existiu) a valorização da família como
pilar central da comunidade e espaço de segurança por excelência.

É compreensível que apostem na
defesa acrítica da família. É uma defesa que caracteriza (histórica e
ideologicamente) o conservadorismo (de esquerda ou de direita). Afinal, a
família é o lugar da intimidade, logo o lugar de todos os silêncios
(convenientes, quando se pretende estruturar na família quaisquer teorias sobre
a sociedade e o Estado). É também na família que se exercem as formas mais
básicas e instintivas de autoridade (tantas vezes violenta, quase sempre opressiva).

Mais de 50% dos crimes sexuais –
e os menores de 18 anos representam cerca de 70% das vítimas de todos os crimes
sexuais em Portugal – ocorrem na família. São executados
pelos familiares destas crianças. Pelos pais, padrastos, tios, avôs (porque
cerca de 95% dos agentes são do sexo masculino). Ocorrem na intimidada (e no
silêncio) da família. Pelo menos 546 pessoas foram mortas em contexto de
violência doméstica em menos de 20 anos (26 crianças). Em 2017, foram
contabilizadas mais de 32.000 queixas de violência doméstica.

O que é que nos dizem estes
dados? Que as famílias são terríveis?

Não. Mas dizem-nos que existem
famílias terríveis. E não são assim tão poucas. São em número suficiente para
que qualquer pessoa responsável pare para pensar. Pensar antes de falar. Pensar
e perceber que a forma como falamos das famílias não é inócua. Que quando
fazemos equiparar família – em regra e por princípio – a espaços plenos de
intimidade, a partir de idealizações artificiais de afetos (que nunca assim o
foram), estamos a deixar de fora as muitas famílias reais que ficam longe desse
ideal. Estamos a contribuir para que as famílias sejam espaços de reserva e
opacidade, logo, estamos a deixar crianças e mulheres (e homens) em risco. Para
ser clara: estou a falar de risco de morte.

É na família que mais se matam
(dolosamente) mulheres e crianças.

É na família que mais se agridem
(dolosamente) mulheres e crianças.

É na família que mais se agridem
sexualmente mulheres e crianças.

É na família que mais se agridem
idosos e idosas (violência que está também a aumentar).

Sabe-se que, por todo o mundo, o
lugar mais perigoso para as mulheres e crianças (pensando em crimes
intencionais) é em casa. Onde estão em família. Onde deveriam estar seguras.
Mas nem sempre estão.

Tod@s gostaríamos, de certeza,
que a família fosse esse lugar ideal para amar. E a maioria de nós esforça-se
seriamente para isso, com certeza. Fazemos o nosso melhor pelas nossas
famílias.

Teremos, então, o direito a
sermos egoístas? Teremos o direito a fechar os olhos, a fingir que não vemos a
violência nas outras famílias? A apagar do nosso discurso e da nossa História
as histórias das vítimas de violência na família? Ou devemos-lhes, antes, como
pessoas empáticas e solidárias que gostamos de pensar que somos, uma atenção
especial?

Devemos-lhes o nosso olhar. A
nossa atenção. Devemos-lhes substituir a hipocrisia do discurso idealizado pelo
realismo de sabermos que nem todas as famílias são espaços de amor e segurança.
Muitas não são. Hoje, à noite, enquanto escrevo este texto, há mulheres a serem
agredidas e violadas nas suas casas. Há crianças a serem agredidas e violadas
nas suas casas. Há doentes, idos@s e maiores dependentes a serem agredidos e
violentados nas suas casas. Pelas e nas suas famílias. Há familiares que fingem
não ver. Há vizinhos que fingem não ver. Há professores que fingem não saber.
Há médicos e enfermeiros que fingem não perceber. E há polícias que preferiam
não saber.

E nós? Vamos fingir que não
sabemos? Vamos fazer como a Raquel Varela e Helena Matos? Ou vamos escolher o
caminho de Diogo Faro e utilizar as nossas plataformas possíveis – seja a nossa
família, o nosso trabalho, a escola, a rua, quando for caso disso – para
construirmos um mundo onde haja mais famílias felizes e menos estatísticas
dolorosas?

A minha opção é cara. Antes
sensivelmente idiota do que estupidamente erudita.

Ler artigo completo ...