Falsos elogios

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O jornal The
Guardian
 publicou o texto de uma
autora indiana, sobrevivente de uma violação em grupo, que se congratulava com
a tímida mudança social que está a acontecer no seu país de origem. Como cidadã
que por vezes se sente exausta perante a sucessão diária de más notícias,
agarro-me a estas centelhas. A esperança alheia fortalece a minha. No entanto,
quando cliquei no título e abri o artigo, não tive coragem de o ler. As
descrições de traumas de outros despertam as recordações dos meus. Então, fui
até ao fundo do texto, em busca da conclusão apenas. Logo abaixo, os
comentários saltaram-me à vista. Li os dois que o jornal destaca, ambos
elogiando a autora, um deles nestes termos: «[…] Sohaila Abdulali é um ser
humano fantástico que optou por não deixar que a sua violação definisse a sua
vida. E que dá um exemplo a todas as pessoas que enfrentaram crimes sexuais em
qualquer parte do mundo. […]» Este é o comentário mais votado pelos outros
leitores do jornal. Aqui, paro para pensar.

Ela recebe aplauso — o
aplauso do autor do comentário, o de outros 22 comentadores que aplaudiram o
comentário, e também o da equipa do The
Guardian, que o destacou — por ter «optado» seguir com a sua vida apesar
da violação de que foi vítima. «Optado». A autora é muito corajosa e a sua
força é admirável, sem dúvida. No entanto, podemos falar de opção? Alguém que
fica debilitado para todo o sempre, com mazelas físicas e psicológicas,
escolheu esse destino? Foi porque não soube seguir «o exemplo»? Como sociedade,
estamos à espera de que toda a gente consiga reagir assim? Há um ideal, um
manual de boa vítima?

A esmagadora maioria das
vítimas de agressões sexuais segue com a sua vida. Na normalidade possível.
Algumas conseguem feitos que geralmente identificamos como sucessos, outras
levam vidas menos notáveis. Mas, de uma maneira ou de outra, seguem em frente.
Que remédio! (Infelizmente, o mundo não pára por estarem a sofrer.) Todas as
vítimas fazem o seu melhor para seguir em diante. Umas conseguem uma
recuperação mais completa — devido à sua genética, à sua personalidade, à sua
condição familiar, social e económica, à natureza do seu trauma, ao acesso que
têm a apoio psicológico —, e outras têm mais dificuldade em fazê-lo. Mas todas
merecem respeito. Independentemente dos resultados. 

Sempre que ouço/leio
estes aplausos, sinto-os como uma ofensa a quem não teve a possibilidade de ter
uma «recuperação exemplar». Parece-me radicalmente injusto que se espere das
vítimas que sejam vítimas perfeitas: que consigam exprimir o que lhes
aconteceu, «não se deixarem definir por isso» (o que é que isso quer dizer?),
ainda se dedicarem ao activismo e levarem vidas equilibradas e graciosas.
Porque é muito, muito difícil fazê-lo, digo-vos por experiência própria. E é,
em boa parte, fruto da sorte — de um equilíbrio dos factores que acima enumerei
— e não de vontade. O
trauma não se supera com força de vontade. Ninguém que
esteja deprimido ou que viva num permanente estado de ansiedade pós-traumática
está nessa situação por opção, nem merece o rótulo de incompetência. E,
inadvertidamente, estes elogios bem-intencionados reforçam essa ideia. E não
servem de nada. A vítima que levanta a voz para partilhar a sua experiência ou
para denunciar uma realidade não quer elogios. Quer que se faça justiça. Quando
uma vítima de agressões sexuais conta a alguém aquilo por que passou, a última
coisa que quer ouvir é «oh, és tão corajosa/o, parabéns», e sim «que m*rda de sistema
este que patrocina estes crimes, estou ao teu lado para mudar o estado das
coisas».

Em vez de perdermos tempo
a elogiar as vítimas exemplares, que tal empenharmo-nos mais em evitar que haja
vítimas sequer? Isso, sim, vai lá com força de vontade. Aí então, se
conseguirmos resultados, estaremos todos de parabéns.

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