FABIANA por Sara Antunes de Oliveira

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Fotografia eloquenceinc.com

Trinta e poucos anos, mãe solteira, mulher sozinha, imigrante, brasileira, sotaque do interior. Limpa casas para criar o filho e pagar a casa arrendada num bairro dos subúrbios de Lisboa.

Dito assim, não é grande cartão de visita.

Ela sabe.

Se não fosse por mais nada, era porque lhe dizem isso todos os dias, mesmo sem lhe falar. De todos os estereótipos, não lhe escapa quase nenhum.

 

Não estudou, ajudou a criar os irmãos, ainda no Brasil. Foram eles a prioridade de uma família na qual foi obrigada a ser pai e mãe. Não se lembra de ter sido infeliz, mas sabe que perdeu algumas coisas.

Não se importa.

O que não tem em bancos de escola e literatura clássica, tem em determinação. Não se sente menor, pior, diferente. Ou por outra – se se sente diferente, acredita que é bom.

 

Habituou-se a ser o cartão de visita.

Não se importa, desde que não lhe pisem os calos. Ou um calo só – o filho. Porque o cartão de visita também diz que não pode ser grande coisa como mãe. Que – de certeza! – que o miúdo não tem tudo o que precisa. Que se não segura na caneta como deve ser é porque tem um défice de desenvolvimento. Mesmo que ainda não esteja sequer na pré-primária.

Leva todos os dias com esta pedagogia moderna insuportável que transformou as mães em seres totalmente incapazes de saber o que é melhor para os filhos. Esta pedagogia arrogante, em que as mães deixaram de ser a Maria, a Filipa, a Fabiana… e passaram a ser só “a mãe”.

“Bom dia, mãe”, “como está, mãe?”, “temos de conversar sobre o seu filho, mãe”.

Há meses que a Fabiana ouve esta conversa, dia sim, dia sim. Porque o filho fez mal um desenho, porque fez um desenho demasiado bem, porque esteve desatento, porque esteve atento demais, porque é calado com os adultos, porque é enérgico entre as crianças, porque sim, porque não.

“Não acha que o menino precisa de ir ao psicólogo, mãe? Temos um muito bom, cá no colégio.” Ah, sim, porque o cartão de visita também diz que a Fabiana é burra – de certeza! – e não sabe que dá jeito ao colégio que os meninos tenham – e paguem – por todos os extras e mais alguns. Não, não serve se o menino for a outro médico, tem de ser ali. Coitadinha, a mãe não percebe. Também deve ter um défice qualquer, só pode.

 

O que me chateia na história da Fabiana é saber que são outras mulheres a fazer-lhe isto, todos os dias. Que são as outras mulheres a olhar para ela de cima para baixo. Que a pisam e magoam a cada conversa destas. Mesmo que ela vire costas sempre de queixo no ar, apesar do coração apertado. E do orgulho ferido.

Mulheres que, coitadas, não sabem.

Não sabem que a Fabiana pode ser – só! – uma empregada de limpeza, mas que é um tesouro para quem a tem. Que é, provavelmente, melhor empregada de limpeza do que elas são educadoras de infância. Que não limpa, cuida. Que não cumpre, preocupa-se. Que tem aquilo que lhes falta – ética. Coitadas.

 

A Fabiana é maluca. Deliciosamente maluca. Diz tudo o que lhe vem à cabeça e tem o coração ao pé da boca. E não é coisa fácil, porque é coração grande.

No dia em que deixei o gato em casa dos meus pais, sem a avisar, achou que ele tinha fugido pela janela da minha casa e ligou-me quase a chorar. Dois dias depois do meu aniversário, deixou-me um bilhete doce, doce, a pedir desculpa por só ter percebido que eu fazia anos quando viu os balões e porque não me comprou um presente. Sempre que lhe digo “mil perdões, deixei a casa em modo caos, faça só o que puder e deixe a roupa que eu depois passo a ferro”, ela faz tudo na mesma, deixa um bilhete a pedir desculpa por ter “desobedecido” e escreve que está aqui para ajudar.

Ajudar. Aquilo que deviam fazer as outras que a tratam como a empregada de limpeza, mãe solteira, mulher sozinha, imigrante, brasileira, sotaque do interior.

 

O Miguel Esteves Cardoso escreveu, um dia, que as mulheres nunca vão mandar nisto porque são incapazes de se unir. Ela não sabe, mas desconfia.

Não se importa. Porque ela é a Fabiana. Fabiana Capaz.

por Sara Antunes de Oliveira

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