Este é o teu corpo

3657

E este o meu. Com estrias nas ancas e pequenos derrames nas pernas. Nódoas negras que faço, calhando, porque bato em tudo e em nada. O meu corpo é um legado arqueológico. Os dois cortes no fundo do ventre por onde saíram os filhos. Ali expostos, a fazer duas ondas de pele. O meu corpo é uma massa de memória. Os sulcos da varicela que, insistente, marcaram a testa e os gânglios do pescoço inchados de tanto que inflamaram na mononucleose. O meu corpo é débil e forte. A celulite nas pernas e as pregas desidratadas na barriga de esticar, de anos de oscilações de peso. O meu corpo é uma muralha com sinais de guerra. A mancha pigmentada no braço esquerdo da vacina do tétano ou a cova do bravo direito que a ausência de um músculo peitoral que uma falha genética deixou entre o peito e a axila.
O meu corpo branco que vai ganhando cor e perdendo ao longo dos anos, pelos banhos de sol, pelos raios de mar. As falanges tortas dos mindinhos e os cabelos brancos que começam a ganhar terreno. O meu corpo é um livro de gravuras. Das cicatrizes nos joelhos de tanto cair da bicicleta nos verões na praceta. Do vinco que o dedo anelar da mão direita faz depois de tirar um cravo. De mamas que deram leite e nem sempre na quantidade que saciasse. Que incham todos os meses. O meu corpo é uma rocha arenosa vítima do vento. Da gordura que teima em não sair nas ancas e da linha da esquina de um degrau que uma queda provocou na nádega esquerda.
Um corpo armadura. Nem sempre feliz. Alvo de atentados. De ódios. De paixões. Um corpo mirado. Minado. Sujeito ao massacre da opinião dos outros. Um corpo rebelde. Feliz tantas vezes. Serpenteado a dançar. Que teima em não descansar. O meu corpo conta uma história. Conta muitas.
O meu corpo é este. E o teu?

Ler artigo completo ...