ESTAS SÃO AS MINHAS MAMAS

8253

Estas são as minhas mamas. Não são seios ou peito. São mamas.

Os médicos assim as chamam. E assim chamá-las-ei. Estas são as minhas mamas.

Não fazia uma mamografia há uns 5 anos. E deitei-me na marquesa para a ecografia mamária com aquela areia na máquina do peito que grita “e se encontrarem uma coisa qualquer?”.

Passei o exame a mirar o monitor. Como se um nódulo aparecesse no ecrã com leds a brilhar e neons vermelhos. E sons, alarmes súbitos com setas a piscar “CANCRO, CANCRO, CANCRO”.

Estava à espera disso a qualquer altura. Como se um caroço ou nódulo tivessem algo distintivo para o comum dos mortais. Luzes a sair daquela massa ou cartazes à volta. Porque o que surge a preto e branco, no monitor, tem aquele aspecto inocente, sonso, disfarçado. O que surge no ecrã tem a imagem indistinta do todo. Assemelha-se ao que é parte de mim, do meu interior, o meu tecido, a minha pele, o meu sangue. E eu ali deitada, sempre alerta, sempre atenta, como se o meu instinto pudesse superar a sabedoria médica que me falha e proferir “Ahhhh, aquela imagem é suspeita, aposto… aquilo, ali, no monitor, deve ser uma coisinha má. Veja lá bem, Doutora…”.

Não. O tumor numa mama não tem legenda, nem um sinal na testa, nem acende flashes no escuro. Está lá, entre o que é nosso, na nossa pele, no nosso sangue, no nosso corpo, escondido. O alívio do “está tudo bem, não tem com que se preocupar”. E a angústia deixo-a ali deitada na marquesa enquanto me visto. Os exames mamários, quer a ecografia, quer a mamografia, devem ser feitos de ano e meio em ano e meio a partir dos 35 anos. De ano em ano, em alguns casos. Não há que facilitar.

Tenho dois filhos para criar e uma vida para viver. Não facilitem.