Estarão as novas gerações livres da homofobia?

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Tinha muita esperança que a geração que agora cria filhos, os estivesse a educar com base numa sociedade justa e sem barreiras que não fossem a da autossuperação, porém enganei-me redondamente. Vivo em Espanha faz mais de um ano e meio e posso afirmar que este – apesar de todos os acontecimentos políticos mais recentes – é um país que trabalha no que às questões LGBTIQ+ diz respeito. Pelo menos mais que Portugal, se comparado.

Contudo, no outro dia, essa visão de país aparentemente mais “avançado” – ainda que no passado mês de abril tenha eleito 24 deputados de extrema-direita para o parlamento –, passou-me completamente ao lado quando, à espera do meu namorado, fui interpelado na rua por uma criança que não devia ter mais que os seus 12 ou 13 anos.

A abordagem era-me familiar “tens 60 cêntimos?”, ao que respondi que não. Quando insistiu no assunto, disse ao rapaz que não era seu pai, nem sua mãe, nem seu tio para lhe dar o dinheiro que me estava a pedir. O mesmo rapaz passou para as ofensas e chamou-me de “maricas de merda” repetidamente. Calado a princípio, não consegui conter-me e perguntei-lhe se isso era a única coisa que me sabia dizer.

A resposta é óbvia: claro que essa não era a única coisa que ele me sabia dizer. Disse também que os maricas deviam estar todos mortos e nesse momento saiu-me um “filho da puta”, daqueles que nos enche a alma e o âmago. O rapaz aparentemente ficou ofendido e quis bater-me. Eu afastei-o e ele pergunta-me se ia ter coragem de bater numa criança.

23            Lógico que jamais tocaria num fio de cabelo de alguém como aquela criança. Pedi-lhe que se retirasse, caso contrário chamaria a polícia e foi nesse momento que o mais insólito sucedeu: a “criança” cuspiu-me na cara. Afastei-me, limpei a cara e o “maricas de merda”, “vocês deviam morrer todos” ou até “eu e o meu pai vamos apanhar-te e dar-te uma sova”, continuavam. Comecei a afastar-me com medo do que pudesse vir de seguida e o rapaz, aparentemente feliz pelo meu medo, também se foi embora.

As horas que se seguiram foram de pânico e alerta para mim. O João de 12/13 anos, vítima de bullying na escola básica por ser “diferente” e que eu achava que já estava bastante bem resolvido, decidiu aparecer. Foi como se naquele momento, que não tardou mais que uns 5 ou 10 minutos, eu tivesse revivido o dia-a-dia durante cerca de dois anos da minha vida.

Pior, ou já expectável, foi não ter uma única pessoa que estivesse a passar na rua e que olhava para a situação, a intrometer-se. Como naqueles tempos em que tinha 12 e 13 anos e em que ninguém parava para ajudar, ou quando paravam era para olhar e seguirem a sua vida como se nada se passasse.

É complicado passados dez anos voltar a reviver isto e a verdade é que por mais sangue frio e calma que tentasse manter, não consegui sair de casa no dia seguinte, e, quando finalmente saí de casa, assustava-me até com a própria sombra. Não devemos – nem podemos – viver com medo. Sabemos que a violência não se combate com mais violência, senão com educação – em casa, e instrução – nas escolas.

Depois deste episódio, perguntei-me: estarão as novas gerações livres da homofobia? Estarão os miúdos como o que fui há dez anos, livres de serem importunados por pessoas sem educação, valores de tolerância ou respeito pela liberdade? Caminhamos mesmo para uma sociedade mais justa e inclusiva? Ou temos apenas uma parcela de pessoas que trabalham nesse sentido, sem que outras se preocupem que a vida dos outros – e com as opções que estas tomam para si –, são coisas que não são da sua conta?

Após analisar esta situação a frio, decidi partilhá-la. Não só porque é necessário continuar-se a expor e a falar sobre este tipo de casos, como também é uma catarse, creio. Não porque tenha medo de me voltar a cruzar com aquele rapaz na rua – mesmo que me volte a cuspir na cara –, mas para que todos aqueles que já passaram por isso também, saibam que podemos contar uns com os outros, falar e trabalhar em conjunto para combater a homofobia.