SER MÃE LÁ FORA por Madalena Augusto

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Especialmente a todas as mães aventureiras que estão lá fora e que pensam estar a enlouquecer. “Been there”

A ideia de recomeçar de novo, de criar uma vida nova num sítio onde ninguém nos conhece e onde tudo é uma surpresa, é absolutamente fascinante! Há quase uma sensação infantil do género “agora posso ser quem eu quiser porque ninguém me conhece aqui nem sabe nada da minha vida. Além disso, vou poder ter uma casa nova e decorá-la com coisas novas!”

É como se voltássemos a ser criança e pudéssemos mascarar-nos de várias personagens e brincar às enfermeiras, às bailarinas, aos piratas, polícias e princesas. No início tem-se aquela sensação fantástica de aventura que saboreamos sempre que viajamos para um destino exótico.

Partimos à descoberta de um mundo que nos é inteiramente novo, onde nem sempre entendemos a língua, nem deciframos a linguagem corporal. Sentimos aquela energia e entusiasmo de explorar cada esquina, provar cada sabor, saborear cada cheiro, aprender palavras novas e tirar fotografias únicas enquanto ainda temos este olhar tão fresco que absorve tudo sofregamente e com uma imensa admiração.

Tudo é surpreendentemente diferente e temos vontade de conhecer e aprender. O que distingue uma viagem de uma mudança de país é que quando fazemos uma viagem há sempre um bilhete de regresso a casa mas quando ficamos de vez, semanas ou meses mais tarde, à semelhança de uma relação amorosa, esgota-se a fase do encantamento e vemo-nos forçados a aceitar que é preciso criar uma rotina porque só assim nos conseguimos organizar. Começamos a ter de estabelecer horários, compartimentamos hábitos, coisas e até emoções e lugares. 

Com crianças pequenas estas rotinas são ainda mais necessárias porque os nossos filhos precisam de ter limites, precisam de ter amigos e não há por perto uma tia, uma avó, um avô, uma mãe, um primo, nem os amigos de sempre e os vizinhos em quem confiamos. Não há ninguém a quem possamos confiar os seres mais importantes da nossa vida e não arriscamos contratar uma baby sitter ou uma ama desconhecida num lugar que ainda é misterioso. A confiança demora tempo a ser conquistada.

Viver no estrangeiro, longe da família, longe do nosso “habitat natural” e fora da nossa zona de conforto não é fácil. Nos últimos 12 anos, mudei 6 vezes de país e vivi em 3 continentes diferentes, enquanto estudante, profissional e mãe. Foi uma aprendizagem enriquecedora mas um desafio diário. E muitas vezes penoso pois envolveu emoções fortes e uma grande dose de empenho e de energia.

Quando mudamos de país, há aquele momento que claramente define que acabou a diversão e já não estamos só de férias porque afinal é aqui que iremos viver nos próximos anos. Em todas as minhas viagens lembro-me perfeitamente do dia em que se deu esse “clique”. Vem assim do nada, quando estamos a contemplar algo, a brincar com os nossos filhos ou simplesmente a cozinhar. É como se o nosso corpo estivesse embalado numa onda de adrenalina e entusiasmo e de repente sentisse um forte abanão que nos sacode. Invade-nos uma sensação de angústia misturada de tristeza e por vezes de medo.

É como se de repente uma voz nos dissesse: “Acorda! Isto agora é a tua vida. Tens de te organizar porque vais viver aqui nos próximos meses e possivelmente nos próximos anos.” É nesse momento em que se dá o ”clique” que bate aquela saudade… e por vezes, são os nossos filhos que nos surpreendem quando o nosso micromundo parece estar a desabar e nos salvam de uma violenta queda. Foi isso que aconteceu comigo em Paris, depois de várias mudanças e num desses dias em que nada estava a correr bem e só me apetecia fugir dali o mais rápido possível e regressar para o conforto da minha casa em Lisboa e para o colo da minha família.

O Rodrigo tinha 6 meses e dormia profundamente na espreguiçadeira, num canto da sala. Era inverno e lá fora estava a nevar. “É amanhã, mamã?” – perguntava o Tiago, o meu filho de 4 anos. “Amanhã o quê?”- perguntei. “ É amanhã que chega o papá?”- perguntou-me com os olhos a brilhar. “Não querido. Só depois de depois de amanhã.”, respondi passando a minha mão pelos seus caracóis. “Ó mãe, porque é que está a demorar tanto tempo?”, perguntou zangado com aquela voz de quem vai começar a fazer uma daquelas birras que me deixam os cabelos em pé. Esta pergunta era mais difícil do que aquelas vezes em que íamos de carro passar férias para o Alentejo e ainda estávamos a passar a ponte 25 de abril, já ele estava a perguntar se faltava muito para chegar.

“Meu amor o papá está a fazer uma coisa muito importante e não consegue vir já, já… mas quando ele chegar prometo que vamos fazer muitas coisas divertidas com o papá e ele vai ficar uns dias só a brincar contigo e com o Guigo. Está bem?”. “Mas eu queria agora! Porque é que não pode ser agora?”. “A mamã já te disse que falta pouco. Tens de ter paciência. Enquanto esperamos pelo papá vamos fazer coisas divertidas, está bem?” “Não. Eu quero o papá e quero ir para casa!” “Mas nós estamos em casa.”- respondi. “Não, esta não é a nossa casa. Eu não gosto desta casa. Eu quero a minha casa! Eu não gosto de estar aqui. Eu não gosto da escola. Eu não quero ir para a escola” – disse como os olhos a brilhar e as lágrimas a escorrerem pela cara. Senti um aperto na garganta. Sentia-me exausta, frágil, sozinha e cansada de tentar explicar que esta agora era a nossa casa, que agora vivíamos neste país, que a nova escola era muito boa e que em breve ele aprenderia a falar francês, tal como tinha aprendido a falar inglês há dois anos atrás quando nos mudáramos para a África do Sul. Sim eu sei que em África fazia sempre bom tempo e as pessoas sorriam mais do que em França mas eu sabia que em breve, este menino de sorriso rasgado que fala pelos cotovelos iria fazer novos amigos e falar fluentemente francês.

Peguei no meu filho ao colo e sentei-me no sofá. Olhei para os seus olhos aguados e tristes. Tão lindo que ele era mesmo assim triste, pensei. “Tiago lembras-te quando eras pequenino e foste para a escola da Miss Amanda em Joburg (Joanesburgo)?” Acenou com a cabeça. “Eras muito pequenino e não sabias falar inglês, lembras-te? Tu choraste muito no primeiro dia de escola porque não conhecias ninguém e a escola era nova. Depois começaste a brincar com os outros meninos. Lembras-te? O Noa, a Julia, o Tom. Lembras-te que andavas descalço no jardim da escola e que brincavas muito com eles? Às vezes vestias-te de Batman?” “Sim lembro-me! Eu quero ir para essa escola!”- respondeu com um sorriso na cara. “Eu não quero esta escola mamã. Os meninos são maus e não brincam comigo porque eu sou estranho.” “Estranho? Como assim? Que história é essa de seres estranho?” “Eu não sei falar com eles. Eu não gosto de francês. Eu não gosto dos meninos. Eu não gosto da Professora. Eu não gosto da escola, mãe, percebes? Eu sou diferente! Eu não quero mais ir para esta escola. Eu não gosto de nada. Eu quero ir embora mãe, por favor”- disse a soluçar.

Agarrei-o com força contra o meu peito. As lágrimas escorriam pela minha cara e caiam nos seus caracóis castanhos. E ele não podia ver-me assim. Também eu queria ir-me embora. Também eu não gostava da escola e detestava a professora arrogante que falava francês. Também eu não gostava de nada. E acima de tudo não gostava de o ver assim triste. Também eu queria que o pai estivesse ali connosco. Porque é que ele estava tão longe? Mas eu não podia fazer nada e essa impotência deixava-me angustiada e triste.

O João trabalha como cameraman numa televisão internacional e partira há mais de 3 semanas para o médio oriente. Primeiro para a Tunísia para filmar uns protestos. Entre biberons e chuchas por esterilizar, noites aos soluços a tratar de um bebé de 5 meses, caixas por desempacotar e mimos para dar, eu não fazia a mínima ideia do que se passava em Portugal quanto mais na Tunísia. E na realidade nada disso me interessava porque a pouca energia que me restava das noites mal dormidas tinha de ser canalizada para gerir o caos que me rodeava e para aguentar as birras e as brincadeiras e lidar com tudo aquilo que a adaptação a um novo país implica.

Na mesma semana em que partira, o João ligou-me a dizer que já não ia regressar a Paris e que tinha de ir imediatamente para o Egipto, onde as coisas estavam complicadas. Tinham incendiado as instalações da televisão onde ele trabalhava. As cadeias televisivas internacionais falavam de uma primavera árabe e passavam imagens de vídeos filmados nos telemóveis e partilhados nas redes sociais por centenas de pessoas anónimas que lutavam pela democracia e por uma sociedade justa e livre 

Eu que trabalhara grande parte da minha vida como jornalista e tinha o meu marido em pleno furacão não estava nem aí. Tinha optado por desligar a televisão porque era mais fácil assim. Era mais fácil não ver mais nada e não saber de nada.

O bebé ainda estava a dormir na cadeirinha mas já devia estar quase a acordar para beber o leite. Tinha de ir esterilizar os biberons.

O skype tocou. Era o irmão do João a perguntar se tinha notícias porque tinham detido jornalistas da cadeia Al Jazeera e ele estava preocupado. “Falei com ele ontem e estava tudo bem.” “Ah ok. Estou mais descansado. Vou dizer aos meus pais.” Despedimo-nos e dirigi-me à cozinha para tratar dos biberons mas o telefone tocou. Era a minha sogra. “Madalena, o João pede para lhe ligares para este número de telefone. Ele perdeu o telemóvel”.

Liguei para aquele número e ouvi a voz do João.”Está tudo bem?” – perguntei. “Sim” – respondeu. “Como estão os miúdos?” “Estão bem mas o Tiago está impossível. Aquelas birras…” e quando me preparava para continuar a desabafar ao telefone, ele interrompeu-me e disse: “Madalena, eu não tenho muito tempo. Fui detido pelos militares. Ficaram com o meu telefone e com o equipamento. Ainda não sei quando vou conseguir sair daqui. Estava com os meus colegas a editar uma peça no quarto do hotel, quando entraram no nosso quarto e levaram-nos todo o equipamento. Acho que os serviços secretos descobriram que estávamos a enviar peças do quarto de hotel.”

Não conseguia dizer nada. Fiquei cristalizada por momentos. “Mas como vais sair daí?”, perguntei. “Não sei. Mas fica com este número. Não te preocupes porque vai tudo correr bem”- respondeu ele tentando acalmar-me e sentindo a minha preocupação. “A Al Jazeera está a falar com os militares e vão arranjar maneira de sairmos daqui. Vai correr tudo bem e eu vou dando notícias. Não fiques preocupada, está bem. Vai correr tudo bem. Nós vamos sair daqui. Amo-te.”

Não conseguia falar. Sentia uma bola enorme na garganta.”Diz à minha mãe que está tudo bem. Ela não sabe o que se passa. Eu liguei-lhe porque era o único número de telemóvel que me lembrava.” Sim, acabáramos de nos mudar para França. Era normal que não se lembrasse do número de telefone.

Olhei para a sala e o Tiago estava entretido a brincar com o lego. Se soubesse que estava a falar com o pai ao telefone ia desencadear outra crise de choro e saudades. Por outro lado, não seria melhor falar com o pai agora? Será que íamos conseguir falar com ele nos próximos dias ou nas próximas semanas?

Despedimo-nos. Em lágrimas, desliguei o telefone e fui para a cozinha. Não queria olhar para os miúdos. Não queria que percebessem nada. Não queria que pudessem suspeitar que alguma coisa não estava a correr bem. Queria que tudo nesta casa parecesse perfeitamente normal. O bebé continuava a dormir. E para não pensar mais no assunto e fingir que existia alguma harmonia e normalidade à minha volta, comecei a lavar os biberons e limpei a cozinha.

O telefone voltou a tocar. Atendi mas não era o João. Era uma ex-colega da SIC que queria saber notícias do João. Ele era o único jornalista português no Egipto. Dei-lhes o telefone para poderem entrevistá-lo para o jornal da noite.

Respirei fundo e pensei nas palavras do João. “Vai correr tudo bem. Não te preocupes”. Eu tenho de ser capaz de aguentar este barco. 

Dei o leite ao bebé. Obsessivamente, comecei a arrumar a sala, os brinquedos, os papéis. O Tiago já se tinha cansado do lego e estava a desenhar. Voltei à cozinha e fui fazer uma sopa. Quando cheguei à sala parecia que um furacão tinha passado por ali. O Tiago tinha desarrumado todos os brinquedos e saltava freneticamente no sofá atirando as almofadas ao ar. Da cadeirinha, o bebé Rodrigo ria-se e assistia entretido ao espectáculo do irmão que cantava e pulava com um chapéu de pirata na mão.

De repente um monstro saiu de dentro de mim. Desatei a gritar que nem uma louca quando vi tudo revirado do avesso. Os brinquedos espalhados pelo chão da sala, as almofadas no ar. Não me lembro de tudo que disse, apenas que gritei e que os miúdos estavam espantados a olhar para mim. Parecia que não me reconheciam. Comecei a chorar: “Tiago olha para o que fizeste? Isto está uma confusão!”, gritei aos berros. “Tu não vês que eu tinha arrumado tudo? Não vês que a mãe está sozinha? Não percebes que eu estou sozinha?”- comecei a soluçar entre o choro convulsivo e caí de joelhos no chão. A expressão do Tiago era de surpresa total. Aproximou-se de mim e abraçou-me com força. Senti aquele calor e cheirinho do meu bebé. Era a melhor coisa que me podia ter feito naquele momento. Pôs as mãos na minha cara cara e disse : “Mamã, tu não estás sozinha! Eu e o Guigo estamos aqui!”

Era isso! Não havia mais nada a dizer. Era só isto. Aquele abraço, aquelas palavras. Ele tinha toda a razão. Era a coisa mais sensata que alguém podia dizer naquele contexto a uma mãe naquele estado. De repente no meio daquela sala desarrumada tudo estava bem porque o meu filho de 4 anos sabia tomar conta da situação e assumiu o controlo de tudo. De repente ele tinha crescido. “Tens razão meu amor. Desculpa. Que tonta que a mãe é. Claro que não estou sozinha. Tu e o Guigo estão aqui e isso é a coisa mais importante. Obrigada, meu querido. Obrigada por tomares tão bem conta de mim e do bebé.”

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