FLORES DE AÇO por Rita Ferro Rodrigues

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Venho de uma família de flores de aço. 

Mulheres muito fortes, pequenas e magras. 

Mulheres muralha. 

São as mulheres de onde venho.

A minha avó Marieta, mãe do meu pai e a minha Mãe.

A minha avó Marieta tem agora 95 anos. Nasceu em Montemor -o-Novo, Alentejo. Apoiada pelo seu pai, meu bisavô, veio para Lisboa com as duas irmãs, para estudar. O meu bisavô achava que as suas  filhas mulheres tinham de ter acesso à melhor educação possível e a melhor educação que elas podiam ter estava em Lisboa, longe do ninho tranquilo do Monte Alentejano. 

Há 70 anos, o meu bisavô, contrariando todas as regras sociais da altura, enviou as filhas para Lisboa para estudarem.

E elas estudaram. 

A minha avó tirou o Curso da Escola Superior Colonial, a minha tia Emília, a mais velha, tirou o curso de Medicina (foi uma das primeiras mulheres no Alentejo a exercer como médica) e a minha tia Mariana, a mais nova, frequentou o curso de Letras. 

Em Lisboa, a minha avó apaixonou -se pelo meu avô. Uma paixão avassaladora. Casou com ele pelo civil, quando e como quis. Não convidou ninguém. Foi há mais de 60 anos. 

Em plena ditadura e sendo funcionária pública, não votar no partido único era uma afronta grave com risco de prisão. 

A minha avó nunca votou. Não sei se tinha medo ou não . Uma vez perguntei -lhe e respondeu -me  com simplicidade: fiz o que tinha de ser feito. 

Em 1958, tinha o meu pai 8 anos, Humberto Delgado fazia o comício da sua candidatura no Liceu Camões. A polícia a cavalo carrega à bastonada sobre os apoiantes do General Sem Medo e o meu pai guarda na memória os gritos da minha avó à janela da casa da Rua Gonçalves Crespo onde moravam, a revolta perante aquela brutalidade : “Assassinos! Assassinos!” 

Uma Mulher Sem Medo, a gritar a plenos pulmões, à janela de um país amordaçado.

A minha avó sempre gostou de Futebol e do Sporting em particular. Em 59, tinha o meu pai 9 anos, levou -o a um jogo nas Antas entre o Porto e o Sporting. A certa altura, vê -se sozinha com o meu pai, na bancada do adversário. Há um rufia que puxa de uma navalha e ela sem hesitar, saca do guarda -chuva e corre com ele à paulada. 

Uma mulher sem medo, de guarda-chuva na mão, a mostrar a sua força, numa bancada cheia de homens estarrecidos com a sua coragem. 

A minha mãe não é filha dela mas  podia ser. Na verdade, é (porque o amor e a força que as une é das coisas mais belas que testemunhei na vida).

A minha mãe tem 67 anos. Tal e qual como a minha avó, foi criada com duas irmãs. O meu avô era um homem do seu tempo, pai extremoso exigente e protector, tinha “uma certa ideia” do que devia ser uma menina. 

A “Menita”, mais nova das três, era “a terrível”.

Não correspondia ao padrão de “menina”.

Maria Rapaz, passava os dias a subir às árvores e a descer a rua a grande velocidade em cima de carrinhos de rolamentos que ela própria construía. Ágil e atlética, rapidamente percebeu que o mundo era para ser conquistado e a vida para ser vivida, como ela a queria viver. 

Uma menina -mulher a descer as ruas do bairro dos Olivais em cima de um carro de rolamentos construído por ela, sorriso tão rasgado como os joelhos, o vento a bater -lhe na cara. Forte e livre.

Católica  de esquerda, embrenhou no mundo da política muito cedo, bem antes de conhecer o meu pai. Casou a primeira vez, teve uma filha (a minha irmã mais velha) separou -se e mais tarde conheceu o meu pai, por quem se apaixonou. 

Nascem os gémeos (eu e o João) e ela ainda não tinha tirado a licenciatura. 

Nada a travou. Com dois putos pequeninos agarrados à saia, noites infindáveis mal dormidas, uma anemia que quase lhe custou a vida, formou -se em História pela faculdade de Letras. 

Uma mulher mãe de gémeos, olheiras profundas e olhar obstinado, a segurar o canudo da sua licenciatura.

Antes disso, grávida de 8 meses, decidiu tirar a carta. O barrigão de final de termo, atrapalhou -lhe o estacionamento e o instrutor, irredutível, chumbou-a. 

Nesse dia fez uma promessa: quando os responsáveis pelo estacionamento frustrado  tivessem 18 anos, tirava a carta com eles. E assim foi. 

Uma mulher de 46 anos, sorriso triunfal, chave do carro na mão, a conduzir como sempre a sua vida. 

A minha mãe é a minha melhor amiga. O pilar absoluto da família. Qual Liedson, é ela que resolve. 

Inteligente, forte e terna, devo-lhe a cumplicidade da resolução dos problemas mais graves que tive na vida. As duas de mão dada, no carrinho de esferas desgovernado . Só ela sabe. E eu. Só ela sabe como tantas vezes me salvou.

Estas são as mulheres de onde venho. 

Quando me dizem que as mulheres são frágeis, a minha reacção é rir à gargalhada. 

Venho de uma família de flores de aço. 

Leonor, filha, esta plataforma é para ti. És uma flor de aço em construção. Quero que saibas de onde vens e sobretudo para onde vais. Forte e livre como a bisavó, a gritar a plenos pulmões à janela de um país nas trevas.

Forte e livre como  a Avó Mena, de chave na mão, a conduzir, poderosa, a sua vida. 

Mulheres Muralha, nunca te esqueças. 

O mundo é nosso, querida filha. O mundo é nosso e de tantas outras como nós. Por todas aquelas que ainda não sendo livres, já o sonham. Marias Capazes de Tudo.

Rita Ferro Rodrigues 

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