CARTA ABERTA ÀS MULHERES DA MINHA VIDA por Iva Domingues

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Lisboa, 18 de Dezembro de 2014

Naquele domingo quente de Agosto roubaram-me a infância. O meu pai. O meu mundo. Morreu.

Perdeste o amor da tua vida, mãe. O teu companheiro de sempre, o teu refúgio, o teu norte, o teu chão. Ficámos as duas sozinhas, dilaceradas, moribundas. E lá nos arrastámos, sobrevivendo aos dias longos, às noites vazias. Lambendo as feridas uma da outra, fazendo os paliativos. Renascemos. Digo isto porque sinto que até então não te conhecia. Até lá não te tinha dado a oportunidade.

Sempre fui a menina do papá, o “ai Jesus” lá de casa. Andava agarrada às calças de ganga dele e não à barra da tua saia. Estavas lá, é certo, sempre. Nunca falhavas. Mas não era o teu olhar de aprovação que eu procurava. Sabias isso melhor que ninguém e não te importavas. Mas depois da tragédia, ficámos só nós. E foi a urgência que senti em proteger-te do mundo que me mostrou o caminho.

Naquela manhã de Agosto fiz o meu ato de contrição e passei a ser também um bocadinho tua mãe. Fiz uma promessa: iria dar tudo por tudo para ser uma boa filha. Que não desse muitas dores de cabeça. Que não te magoasse. Que não te arranjasse problemas. Que não te desiludisse.

Acho que nunca te disse, mas foi por ti que estudei tanto e entrei no quadro de honra do liceu. Foi a pensar em ti que tentei não ser a miúda irritante na idade do armário. Era a minha forma de te poupar, porque a vida já estava difícil o suficiente.

Na universidade, adiei o sonho de vir estudar para Lisboa para ficar perto de ti. O ninho vazio seria tão duro… Então, cada escolha acertada e cada vitória conseguida eram sempre para te provar que estavas a fazer um bom trabalho como pai e mãe. E que mãe me saíste! A melhor. Sei hoje o que deves ter sofrido, calada, e o medo que deves ter sentido.

És uma Maria, de nome, alma e coração. És uma rocha. E conseguiste. Ouviste? Conseguiste, mãe! Hoje sou, graças a ti, uma mulher destemida e independente nas ideias e opiniões. Orgulhosa dos meus feitos, agradecida pela aprendizagem dos meus fracassos. Ensinaste-me a ser livre. A não ter medo. A dizer o que penso. A amar e respeitar todos, sem olhar a credos ou raças. A respeitar-me. A ouvir. A cuidar dos que amo.

Passaram 24 anos desde aquela manhã. Há 12 recebeste o maior elogio da Natureza: a tua neta Carolina, com os teus olhos verdes, meigos e contemplativos. Inteligente, curiosa, linda de morrer! Ela tem a tua garra e a tua doçura, que são minhas também porque as herdei de ti. Juntas somos a nossa santíssima trindade. Três guerreiras. O amor que nos une é à prova de bala. À prova de morte.

Maria Capaz é a minha homenagem a ti, Maria Emília Capaz de Tudo.

Para ti, Carolina, espero que seja um legado e uma inspiração. Podes ser quem tu quiseres, tudo o que quiseres (digo-te isto tantas vezes, não é filha?). E é verdade, o mundo é teu! E há nele um mar de possibilidades de realização e felicidade.

Espero, no que depender de mim, que cresças num mundo mais justo e livre onde possas esgotar essas possibilidades e te tornes na mulher que já sei que és. A ti, meu tudo, sempre que tiveres medo de sair da tua zona de conforto, sempre que hesitares em dar o salto, prometo responder como o poeta, quando me perguntares:

– Então, e se eu cair?

– Oh, mas meu amor… e se voares?

Iva Domingues

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