ESCUTAR CONVERSAS…É UMA DELÍCIA!

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Dizem que escutar conversas é feio. Meter bedelho nas conversas dos outros, mais feio ainda… e, no meu tempo, dava direito a um belo puxão de orelhas. Mas há conversas alheias que nos marcam.

Há dias, tive a sorte de conhecer a Matilde, um ser humano especial, claramente abençoado com o dom da comunicação. Fui ‘interrompida’ pelo seu discurso cativante quando me preparava para assumir a faceta anti-social do dia – ouvir rádio com auriculares – no percurso casa/trabalho em transportes públicos.

A Matilde tem 10 anos, quase 11. Olha o mundo com a inspiração de quem tem tudo por fazer, por dizer, por SER. Tudo é possível! Tem, na calha, um leque de 5 profissões (algo que os adultos não conseguem fazer e as crianças fazem tão bem: se o plano A não dá certo, vamos ao plano B, sem dramas!). Quer ser atriz, como primeira opção, o que inclui estudar no conservatório, «viver num apartamento com a Beatriz, como amigas» e ir à cerimónia dos óscares de mãos dadas com o avô. O avô materno da Matilde é a pessoa em quem ela mais confia e que a entende melhor: – «é a minha pessoa preferida, está em nº 1, mesmo à frente dos meus pais. Ele tem sentido de humor!» Se não der certo na representação, a segunda escolha é ser inspetora da polícia judiciária. Ou fazer as duas coisas, porque sim, tudo é possível no mundo desta menina.

A Matilde é boa aluna, no entanto, não deixa de se preocupar com os colegas que têm mais dificuldades nos estudos. O discurso dela, responsável, maduro, e ao mesmo tempo inocente e sensível, como seria de esperar: «Nós temos tantas aulas e atividades que não temos tempo para repousar. Também é preciso repousar, não é?». Esta parte da conversa era uma reprodução da explicação que ela dá à sua avó, quando esta afirma que a vida não é fácil – «e a de estudante também não é!». Diz isto enquanto aponta para o relógio e faz um reparo sobre o autocarro estar uns minutos atrasado no percurso. A senhora sentada ao lado dela – primeiramente achei que fossem parentes dado o à vontade da miúda – estava completamente rendida e os restantes passageiros deslumbrados. Quando ela saiu do autocarro, as pessoas começaram a falar entre si – «já não se vêem crianças assim, que maravilha!» – e eu dei por mim a meter o bedelho, admitindo que tinha ouvido a conversa inteira (coisa feia), simplesmente porque era uma delícia! De repente, assisti a uma reunião de mulheres que confessavam já terem sido um pouco aquela menina, em tempos. Um misto de nostalgia com orgulho feminino que se instalou, por instantes.

A Matilde seguiu caminho, de volta a casa, com a sua mochila às costas, segura de si, cheia de esperança, e sem imaginar o bálsamo que representou aquela conversa no autocarro. Apeteceu-me tanto pedir-lhe que continue convicta dos seus valores, que não esqueça os seus sonhos e projetos. Que aquele brilho no olhar não desapareça, mesmo que a vida por vezes (ou muitas vezes) seja dura. Que não acredite nas pessoas que lhe vão dizer que não é capaz. Que não deixe que a anulem, a sufoquem. Que a realidade não suplante o sonho e a frustração não se eleve na sua vida.

Porque o mundo precisa das Matildes. Porque o futuro são estas Matildes e, aí sim, acredito que todos estaremos em boas mãos.