ENTREVISTA – Rita Redshoes por Vanessa Cardoso

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O mundo descobriu Rita Redshoes com “Dream On Girl”, um tema gravado em casa e lançado, inocentemente, na internet, que a trouxe até onde está hoje. Antes disso, com 16 anos, depois de se ter fascinado com um documentário sobre PJ Harvey, decidiu estudar música e formar uma banda com amigos, os Atomic Bees, com quem lançou o álbum love.noises.and.kisses. Fez parte da banda de David Fonseca, toca piano, baixo, bateria, escreve tudo o que canta com a sua voz melancólico-doce e há quem a chame de “Dorothy” portuguesa.

De sapatos vermelhos nos pés, encetou um caminho a solo, como Rita Redshoes. Em 2008, viu nascer o seu primeiro álbum Golden Era, que vendeu mais de 10 mil discos e que a catapultou para o mundo. No ano seguinte, a artista internacionalizou-se com um concerto no Eurosonic, Holanda, com a actuação no mítico festival de Austin, EUA, South by Southwest, prémios e duas noites esgotadas no Cinema S. Jorge, Lisboa. Até ao segundo disco Lights & Darks passaram apenas dois anos, onde se assiste a uma injecção de maturidade e a menina vira mulher, reviravolta essa encabeçada pelo tema “Captain of my Soul”, uma explosão nas rádios.

Pelo meio, Rita Redshoes dedica-se a uma das suas grandes paixões, a música para cinema, onde compõe bandas-sonoras lado a lado com The Legendary Tiger Man (Paulo Furtado), sendo uma delas “Estrada de Palha”, que lhe valeu um Prémio Sophia.

E é em 2014 que nasce “Life Is A Second Of Love”, gravado entre Lisboa e o Brasil, terceiro e o mais fiel disco da carreira da autora. Foi gravado na Valentim de Carvalho, com um dos microfones de museu, com o qual Amália Rodrigues também gravou. Este é o disco mais maduro, mais rico e mais pessoal da compositora.

Como feminista que é, Rita Redshoes criou “The Other Woman”, um espectáculo onde homenageia as suas heroínas e canta temas de grandes mulheres, vultos da música internacional. Recentemente, pôs Cristiano Ronaldo a dançar, num tema criado em parceria com The Legendary Tigerman, para a nova campanha de calçado do astro do futebol. Em conjunto com oito mulheres, é uma das cantoras do hino da APAV – Associação Portuguesa de Apoio à Vítima – “Cansada”, sendo um tema de alerta contra a violência, de uma forma poética e, ainda, é a Madrinha de RITA.RED.SHOES.cerebralpalsy.designproject, de um projecto liderado por estudantes das faculdades de Engenharia e de Belas-Artes do Porto, para o desenvolvimento de calçado para pessoas com paralisia cerebral.

De cabelo curto e elegantemente desalinhado, sempre de sorriso rasgado e olhar concentrado, a generosa Rita Redshoes recebeu a Maria Capaz em casa, para uma conversa intimista, de onde os seus dois gatos não arredaram pata.

Por Vanessa Cardoso

– Li algures que dizes ser uma pessoa silenciosa. Vai ser uma entrevista difícil?

Não, de todo. Sou silenciosa porque gosto muito de absorver, de ver, de ouvir, mas também acho que sou muito comunicativa.

– Já não usas sempre os teus sapatos vermelhos?

Já não. Por uma questão de facilidade de comunicação inicial do nome e do projecto aproveitei para ilustrar com os sapatos vermelhos. Mas, na verdade, a escolha do nome tem pouco a ver com a ideia de andar sempre de sapatos vermelhos. Tem muito mais a ver com a mística e o significado que os sapatos vermelhos têm em filmes, em histórias… e até a ideia de que para a própria mulher, o sapato vermelho traz o assumir de uma posição, o charme, o “estou aqui”. Também tem a ver com a ousadia de pisar um palco, visto que sou um bocadinho tímida, passei a ter ali uma capa de super-mulher (risos).

– Tens saudades dos Atomic Bees?

Tenho! Tenho saudades de muitas coisas! Comecei muito novinha, com 14 anos. Tenho saudades da inocência de estar numa garagem ou de passar as férias da escola com os amigos a inventar músicas e possíveis cenários de palco para os espectáculos. Não é que isso não exista ainda hoje, existe, e eu faço questão de manter essa proximidade com as pessoas, porque continuo a trabalhar com amigos. Essencialmente tenho saudades dessa inocência e energia que se tinha em olhar para tudo pela primeira vez, com tantos sonhos para conquistar, sem ter noção dos obstáculos que vamos encontrar.

– Foi o tema Dream On Girl – gravado em casa e lançado no My Space – que te trouxe até aqui?

De certa forma, sim. Apesar de ter um percurso para trás, de ter os Atomic Bees, de ter tocado com o David Fonseca, as pessoas não me conheciam a solo. Quando coloquei inocentemente essa canção no My Space, era para partilhar com os meus amigos e, de repente, recebo uma mensagem do Henrique Amaro que está, desde sempre, muito envolvido com projectos de música portuguesa e fiquei muito contente. Quando lancei esta música ainda nem tinha nome, não era a Rita Redshoes e, claro que isso me motivou e acelerou o processo. Decidi começar a gravar o meu primeiro disco.

– 2009 foi um ano intenso para ti, foi o ano da tua internacionalização, com um concerto no Eurosonic, na Holanda, a nomeação nos prémios espanhóis Pop-Eye, a ida ao mítico festival South by Southwest, em Austin, dois dias esgotados no Cinema S. Jorge… Foi um ano perfeito?

Do ponto de vista profissional e para quem lança um primeiro disco sem grandes expectativas, a pensar que ia vender, com sorte, umas mil cópias, foi perfeito! Dificilmente poderia ter sido melhor! E ainda bem que não foi mais porque já tive tanta coisa para gerir!

– Foi o Golden Era que proporcionou isto e também um disco de ouro. Que valor tem para ti?

Mais do que ter um galardão, é imaginar que há 10 mil pessoas que têm o meu primeiro disco em casa. Isso sim, é mágico, que é o que se está a perder actualmente… Hoje em dia, já não temos a verdadeira noção de quantas pessoas nos ouvem, porque o número de views no youtube não é a mesma coisa. É uma realidade que, em poucos anos, mudou brutalmente. Eu atravessei esta mudança abrupta de muito perto porque os meus três discos acompanharam estas mudanças. Tenho isso muito presente.

– Além da maturidade, o que mudou entre o primeiro e o segundo disco?

Quando me imagino a fazer música, tenho sempre a necessidade de não me repetir, tal como tenho de me encontrar. Eu só me consigo definir a não fazer a mesma coisa. Isso obriga-me a experimentar, o que é um risco, na verdade. Debato-me sempre com isto! Como tive muito sucesso com o primeiro disco, o mais inteligente seria fazer o mesmo e repetir a fórmula, mas eu não me revejo assim e quis arriscar. Com este terceiro disco arrisquei ainda mais! Acho que isso é o mais importante, assim durmo descansada. Eu sei que apesar da roupagem das músicas, a sonoridade poder ser diferente, a essência, a base está lá e eu sei que sou eu. É o meu bilhete de identidade. Para quem vai acompanhando o meu trabalho, também tem a oportunidade de me descobrir e quem fica é porque se identifica com o meu trabalho. Público volátil há-de existir sempre. Podemos ir buscar mais pessoas com um sucesso ou outro.

– O tema Captain Of My Soul foi um hit das rádios. Nunca te fartaste dele?

Bom, enquanto estou a fazer um disco novo, ouço-o muitas vezes, faz parte. E quando o termino, já o ouvi mil vezes e não ouço os meus discos, a não ser que, por trabalho, tenha que lá voltar. Acho que nem sequer tenho o meu segundo disco em casa! (risos). Ao vivo, assiste-se à magia do palco e a magia de tocar com músicos e de transformar as músicas. Nunca me enjoei de nenhuma das músicas.

– Eu estava naquele Rock in Rio em que cantaste com os Snow Patrol. Estavam 80 mil pessoas a assistir. Lembro-me perfeitamente que foi um momento muito bonito. Tu lembras-te?

Nunca tinha visto tanta gente à minha frente! Quando entrei fiquei quase sem respiração e perguntava-me “como é que cabe tanta gente aqui?” e a imagem era linda! Tenho essa imagem gravada porque aquela espécie de anfiteatro natural com toda a gente a vibrar é lindo, é inesquecível. Confesso que não era e não sou grande fã dos Snow Patrol, mas achei o convite muito simpático e não consegui dizer que não. E quando os conheci percebi que eles são pessoas muito simpáticas, convivi com eles e ainda hoje me escrevo com o Gary (Gary Lightbody, vocalista e guitarrista dos Snow Patrol) e ficou uma grande empatia pelas pessoas e foi isso que sentiu em palco, essa energia positiva.

– Tens vários projectos de documentários e bandas-sonoras, também em parceria com o Paulo Furtado. É uma área que te fascina e complementa?

Eu adoro! Adoro fazer música para filmes, documentários, instalações, para outros contextos… Adoro mesmo! Para mim, é muito saudável artisticamente. Em termos musicais, é uma liberdade imensa porque eu sei que não tenho que fazer uma canção com refrão e com 3 minutos para poder passar na rádio. Tenho algumas regras e a obrigação de servir o filme, mas em termos musicais dá-me uma liberdade incrível. Antes de começar a fazer música era uma daquelas coisas que eu pensava e dizia para mim mesma “quero muito fazer música para cinema!” Tenho conseguido fazer, o que me deixa muito feliz. A parceria com o Paulo, corre sempre bem, porque temos muita química a trabalhar. E até ao final do ano vai sair mais uma banda-sonora para outro filme do Rodrigo Areias.

– O tema Broken Bond parece-me um excelente ponto de partida. Fizeste o disco que realmente querias?

Fiz! Desta vez, tive um interregno de 4 anos entre um disco e outro, porque estive a fazer outras coisas… É muito tempo! Este disco é muito especial. Estava à espera de chegar a um determinado sítio e consegui. É um disco muito pessoal e era importante, para mim, ter a coragem de me expor nas letras, de falar mais na primeira pessoa, no sentido real. Fui perdendo e timidez pelo caminho e, para mim, o mais importante neste disco, era sentir a verdade.

– Contaste com a produção do Gui Amabis. Como foi escolher e trabalhar com um produtor que não conhecias?

Trabalhamos grande parte do disco via Skype, uma vez que ele vive em são Paulo e, desde o início, que ele me entendeu. Mais tarde, em Novembro passado, ele veio para Lisboa e estivemos um mês a trabalhar em estúdio. O Gui é uma pessoa muito generosa e de um talento enorme. Esteve sempre disponível e sempre aqui a trabalhar neste disco. Eu queria mesmo, neste disco, sair fora de pé e nunca tinha trabalhado com pessoas que não conhecesse. Queria alguém novo e que me expusesse. Não queria estar em casa! Escrevi letras tão pessoais, que tinha que ter alguém com uma certa frieza para me trazer cá para fora. O Gui não olhou com frieza, mas com o distanciamento certo. É um grande risco, mas foi uma parceria que correu muito bem.

– Tens encontrado generosidade pelo caminho?

Tenho, tenho! Tanto músicos, como público, como pessoas que trabalham à minha volta. Pessoas que realmente gostam do meu trabalho e que eu sei que acreditam no que faço, não olhando sempre para o lado comercial, que também faz parte deste mundo. Como pessoa, não me identifico com este mundo competitivo, então é importante encontrar e ter pessoas assim comigo.

– “The Other Women – O mundo nas canções d’Elas” é incontornável para a Maria Capaz. Criaste um espectáculo onde homenageias mulheres, grandes nomes da música internacional. Fala-me sobre isto!

Foi um projecto que me deu um gozo imenso fazer! Faz sentido falar nisto, não só na Maria Capaz, mas em todo o lado. A questão do papel da mulher na arte é essencial, e posso falar especificamente da música e do que tenho vivido. Eu senti necessidade da fazer um espectáculo em que a premissa fosse: todas estas músicas foram escritas por mulheres, as letras, as músicas, elas tocam instrumentos, têm uma voz, uma identidade, e têm coisas muito importantes para dizer. Portanto, apesar de nos discos parecer que só cantam e fazem pose para as fotografias, atenção, estas mulheres têm uma história e marcaram a história da música. Estas mulheres foram muito importantes para mim, para o meu percurso e, portanto, eu quis homenageá-las. Fiz uma pesquisa gigante durante dois meses para chegar a estes nomes. Todas as canções que eu escolhi foram escritas por aquelas mulheres. Não sei se isto passou para as pessoas mas, ainda hoje, em alguns dos meus concertos faço questão de tocar estas canções e tocar outra vez no assunto. Quando eu comecei no mundo da música – e eu juro que não fazia ideia de que era assim – que ainda existisse uma primazia do homem sobre as coisas. Eu li e ouvi comentários sobre mim como “não é ela que faz as músicas, é o músico tal” ou “a guitarra dela à frente não se ouve, ela não está a tocar”, Enfim… Também no meu trabalho com o Paulo Furtado, aconteciam frequentemente episódios caricatos. Nós temos exactamente o mesmo espaço de trabalho entre os dois e as pessoas acham que não e davam a primazia obviamente a ele e achavam que era só ele que escrevia as músicas. Ou então em reuniões em que estávamos os dois e não olhavam para mim, como se a comunicação entre homens fosse mais fácil. Eu entendo isso, mas também me revolta e, por isso, este espectáculo foi o meu grito de guerra. Eu não culpo exactamente os homens. Nós, mulheres, também temos a nossa responsabilidade nisto. Bom, foram séculos de castração, o que não é tratado a nosso favor. Há uma série de movimentos, por exemplo, as Guerrilla Girls, ao qual me associei, um grupo de artistas plásticas que diziam que só entravam em museus estando nuas, seja em quadros, em estátuas, instalações… As mulheres têm que se expor desta forma para conseguir igualdade?! Eu percebi também que é uma questão de habituação, porque costuma ser assim, e não pode ser! Eu não grito pela igualdade, porque somos seres diferentes, mas que se faça justiça ao que é justo. Não nos tratem como se tivéssemos que ter padrinhos ou alguém que nos faça as coisas.

– PJ Harvey, Joni Mitchell, Patti Smith, Dolly Partons, Nina Simone, Xana foram algumas das autoras que interpretaste. São referências? O que representam para ti estas mulheres?

Sim. A P.J. Harvey, sem ela saber, é a culpada de eu ser música. Uma vez encontrei numa loja um documentário sobre ela e apaixonei-me. Além de ser filmado de uma forma muito peculiar, era um documentário muito íntimo, onde a filmavam em digressão, no camarim, a aquecer a voz antes de um concerto, o pós-concerto, ela no quarto de hotel… e eu pensei… “eu quero isto, eu quero ter esta vida!” (risos). Mostrava também o outro lado, o lado da solidão, das frustrações, das dúvidas. Enfim, era um livro aberto sobre ela. E aquilo aguçou muito a minha curiosidade, ficou marcadíssimo em mim. Tinha 16 anos quando o vi e um ano depois saí da escola normal e fui estudar música. Foi essa cassete e todos os discos dela, e depois de outras mulheres que também são referências para mim, que me levaram a estudar música e a estudá-las, li as biografias, percebia as carreiras, analisava a forma como cantavam… Serviu de aprendizagem e de inspiração.

– Em 2012, recebeste o Prémio Femina Mérito nas Artes Musicais. É um galardão que premeia mulheres que se destacam por mérito nas artes na sociedade portuguesa. Como recebeste a notícia?

Fiquei muito orgulhosa e honrada, não estava nada à espera e, até brinquei, pois disse que ainda tinha feito tão pouco para receber um prémio assim… Faço os meus discos, as minhas canções e, às vezes, até acho que é uma profissão muito egoísta. Daí achar que a minha utilidade para a sociedade portuguesa não é assim muita! (risos). Mas fiquei a pensar que o meu trabalho toca muito no ponto das mulheres no mundo da música, do feminino, das mulheres a fazerem música, a terem uma voz. Há uns anos atrás, não havia tantas mulheres a fazer música. Senti responsabilidade por isso e por ter sido reconhecida, de alguma forma, por fazer música.

– Dás voz ao actual hino da APAV ao lado de mais 7 mulheres. Como surgiu este convite?

O convite veio através do Rodrigo Guedes de Carvalho, autor da letra e canção. Não hesitei nem um segundo e aceitei com a certeza de que no final iria sentir-me muito honrada por fazer parte deste projecto.

Correu tudo de uma forma muito fluída e no fundo aquilo que gostaria era que as pessoas para quem a violência doméstica é uma realidade, se sentissem inspiradas e com a força necessária para procurar ajuda e deixarem de sofrer. Espero que, se não se conseguir alterar nenhuma destas situações, pelo menos reconforte quem sofre.

– És mais menina de palco ou de estúdio?

Nesta profissão, eu gosto de tudo, mas rejo-me muito por fases. Há alturas em que gosto mais de estar em casa a compor e a trabalhar, gosto muito dos processos criativos, do estúdio… E, depois, também sinto uma falta enorme de estar em palco, apesar de antes de entrar em palco, sentir aquele nervosismo e penso “mas porque é que eu me meto nisto?!” (risos). Essencialmente por causa do nervosismo, mas depois entro e tudo isso desaparece e penso “ah, ok, já sei porque é que me meto nisto!” E é tão bom! É a forma de chegar às pessoas e receber coisas, porque nós recebemos sempre muito. Sou fã de todas as componentes.

– Estás a promover o teu último disco “Life Is A Second Of Love” lançado em Maio do ano passado. Quais os próximos passos?

Acabou de sair o meu novo single “White Lies” com uma remistura do Xinobi e conto com o Ivo Canelas num videoclipe muito curioso sobre a relação homem-mulher. Têm que ver! Tenho as bandas-sonoras que vão sair em breve, tenho um outro projecto que estou a finalizar mas sobre o qual  ainda não posso falar muito. Posso dizer que é um livro, mas não é um romance, porque eu não sou escritora, mas é algo muito pessoal. E vou começar a ter mais concertos e começar a escrever outra vez. Não quero esperar mais quatro anos para lançar um novo disco! (risos).