ENTREVISTA – Rita Redshoes por Vanessa Cardoso

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Foi um projecto que me deu um gozo imenso fazer! Faz sentido falar nisto, não só na Maria Capaz, mas em todo o lado. A questão do papel da mulher na arte é essencial, e posso falar especificamente da música e do que tenho vivido. Eu senti necessidade da fazer um espectáculo em que a premissa fosse: todas estas músicas foram escritas por mulheres, as letras, as músicas, elas tocam instrumentos, têm uma voz, uma identidade, e têm coisas muito importantes para dizer. Portanto, apesar de nos discos parecer que só cantam e fazem pose para as fotografias, atenção, estas mulheres têm uma história e marcaram a história da música. Estas mulheres foram muito importantes para mim, para o meu percurso e, portanto, eu quis homenageá-las. Fiz uma pesquisa gigante durante dois meses para chegar a estes nomes. Todas as canções que eu escolhi foram escritas por aquelas mulheres. Não sei se isto passou para as pessoas mas, ainda hoje, em alguns dos meus concertos faço questão de tocar estas canções e tocar outra vez no assunto. Quando eu comecei no mundo da música – e eu juro que não fazia ideia de que era assim – que ainda existisse uma primazia do homem sobre as coisas. Eu li e ouvi comentários sobre mim como “não é ela que faz as músicas, é o músico tal” ou “a guitarra dela à frente não se ouve, ela não está a tocar”, Enfim… Também no meu trabalho com o Paulo Furtado, aconteciam frequentemente episódios caricatos. Nós temos exactamente o mesmo espaço de trabalho entre os dois e as pessoas acham que não e davam a primazia obviamente a ele e achavam que era só ele que escrevia as músicas. Ou então em reuniões em que estávamos os dois e não olhavam para mim, como se a comunicação entre homens fosse mais fácil. Eu entendo isso, mas também me revolta e, por isso, este espectáculo foi o meu grito de guerra. Eu não culpo exactamente os homens. Nós, mulheres, também temos a nossa responsabilidade nisto. Bom, foram séculos de castração, o que não é tratado a nosso favor. Há uma série de movimentos, por exemplo, as Guerrilla Girls, ao qual me associei, um grupo de artistas plásticas que diziam que só entravam em museus estando nuas, seja em quadros, em estátuas, instalações… As mulheres têm que se expor desta forma para conseguir igualdade?! Eu percebi também que é uma questão de habituação, porque costuma ser assim, e não pode ser! Eu não grito pela igualdade, porque somos seres diferentes, mas que se faça justiça ao que é justo. Não nos tratem como se tivéssemos que ter padrinhos ou alguém que nos faça as coisas.

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