Entre marido e mulher, meta-se sim a colher!

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1, 2, 3, 10, 12, 15, 20, 25, 28, 39….

40! Desde 2018 até à presente data foram 40 (quarenta) as mulheres assassinadas em Portugal. 28 (Vinte e oito) em 2018 e 12 (doze) em 2019. 10 mulheres e 1 criança. Femicídios cometidos por pessoas com quem mantinham ou mantiveram uma relação de confiança, seja ela romântica ou familiar. 503 femicídios entre 2004 e 2018. Quinhentos e três![1]

Homicídios perpetrados por filhos, pais, cunhados, namorados ou cônjuges.

Em 2019, sabemos que 7 (sete) destas 11 mulheres viram a sua vida terminar abruptamente às mãos dos seus companheiros ou ex-companheiros. Sete mulheres que apenas o que fizeram de “errado” foi o de se apaixonarem por quem não sabe o que é amor, o que é amar. Quem acha que amor é igual a propriedade, a domínio, a brutalidade, a violência, a morte.

Apaixonarem-se por quem não lhes deu valor, por quem desconhece o que é amar, o que é respeito, o que é humanidade.

Pergunto-me muitas vezes o que leva alguém a agredir o/a companheiro/a. Porque é que alguém que está supostamente apaixonado ou apaixonada por nós, que jurou amar e respeitar, se sente no direito de nos gritar, de nos bater, de nos espancar, de nos matar?

E pese embora não seja, infelizmente, tão denunciado, talvez por vergonha, por terem medo de serem menorizados/as (como é que alguém pode gozar com outra pessoa por esta ser maltratada?), existem também muitas agressões cometidas de mulher para homem, de mulher para mulher, de homem para homem. Este não é um flagelo que sucede apenas às mulheres. É um flagelo que não escolhe sexo, não obstante seja muitíssimo mais usual (que pena tenho de escrever esta palavra) estar associado à violência de género, precisamente por causa da desigualdade e do machismo na sociedade.

Um ponto essencial e primordial que não pode suscitar qualquer dúvida: Quem bate numa mulher só tem um adjetivo que se lhe aplique: cobarde. Ponto final. E não o é por sermos um ser frágil (às vezes), ou porque somos as únicas com a capacidade de parir, sejam ou não agressores, ou por sermos flores de estufa. Mas sim porque somos pessoas. Só isso já devia ser o bastante! A violência não é, nem pode ser, opção.

Custa-me saber que, ainda nos dias que correm, existem pessoas a virar a cara para o lado quando testemunha alguma agressão, física ou não, na rua, ou quando ouve gritos vindos da casa do vizinho ou da vizinha, põe o som da televisão mais alto como forma de abafar os mesmos.

Cresci a ouvir a minha Mãe dizer: “Filha, entre marido e mulher não se mete a colher”. Ou, “Quem vai no convento é que sabe o que lá vai dentro”. Dizia-me que não me devia meter em nada, que não era nada comigo, que não me armasse em justiceira, pois podia correr mal para mim. “Ele” podia ser maluco, e, se eu me fosse meter, quem sabe não virava a sua raiva toda para mim? Outros tempos…

Ainda assim, e apesar de compreender os receios da minha Mãe, não consigo virar a cara. Sei que a minha Mãe diz estas coisas, não por não querer saber dos outros, mas por ter crescido a ouvir o mesmo, e por não querer que eu me exponha a riscos. A minha Mãe cresceu a ouvir a sua Mãe dizer que, em casa e na rua, quem manda é o homem, e que a mulher tem mais é de obedecer, sem reclamar. Sem voz. Sem individualidade. Sem nada.

Lembro-me de, com os meus 8 ou 9 anos, me questionar, muitas vezes: Porquê? Porque é que não posso dizer a alguém para não fazer mal a outra pessoa? Será que não devia fazer algo para ajudar alguém em perigo? Não teria essa obrigação? Só por ser entre um homem e uma mulher? Mas porquê? Porque é que não devia ir ter com um polícia na rua e dizer o que tinha visto? Não era isso que a minha Mãe me dizia para fazer caso um estranho viesse ter comigo? Porque é que não o podia fazer se visse uma discussão ou agressão na rua? Porque é que tinha de virar a cara para o lado como se não fosse nada comigo? E que raio era isso de meter a colher no meio do marido e da mulher?

Tive a resposta anos mais tarde, deveria ter eu uns 12/13 anos, quando assisti a um episódio que nunca mais esqueci. Tenho quase a certeza que foi nessa altura que decidi que não podia ficar indiferente a situações de violência. Estava a ir para a escola, quando vi um casal de adolescentes, ela talvez com os seus 16 anos e ele mais velho, talvez uns 19/20 anos, em que ele lhe berrava, chamava-a de puta, de ordinária, que a tinha visto a falar com o professor a dar risinhos e que de certeza que já “o tinha comido”, que com ele não ia para a cama mas que com os outros apostava que já ia, que ela não valia nada, que era lixo, que o que ele merecia era uma “gaja” muito melhor, etc.

Tudo isto enquanto ela tentava falar, a soluçar no seu próprio choro, a dizer-lhe que não era nada disso, que ele sabia que ela só gostava dele e que jamais iria fazer algo assim. E a pedir-lhe desculpa! Desculpa por não ter feito nada. Desculpa! Desculpa! Desculpa! E eu, parada uns metros atrás, a debater-me com o que deveria fazer, reparava que as pessoas passavam por eles e arrepiavam caminho, como se nada daquilo estivesse a suceder… Até que ele, estimulado talvez pelos inúmeros pedidos de desculpa dela, lhe deu uma chapada com tanta força que a atirou ao chão, como se fosse uma pena.

Imediatamente, avancei e disse-lhe que aquilo não era correto, que não devia bater-lhe, que não podia fazer isso e que a estava a magoar. Gritou-me e disse-me para desaparecer, que não era nada comigo e se eu não saísse já dali que levava também. Fiquei com medo, claro, afinal não era nem sou nenhuma supermulher, mas naquele momento, fui buscar uma coragem que desconhecia ter, disse-lhe que se ele era cobarde para bater numa menina, que fosse em frente pois o meu tio era polícia, estava a caminho para me vir buscar e que o ia levar preso.

As coisas que nos lembramos de dizer, mas na altura a polícia ainda era vista com um enorme respeito, pelo que foi a única coisa que me ocorreu… O certo é que resultou. O agressor virou as costas, não sem antes cuspir cheio de raiva para cima da namorada que continuava deitada no chão, a chorar, ameaçando-a que as coisas não iriam ficar por ali, tendo de seguida começado a fugir como o verdadeiro cobarde que era.

Dei a mão à rapariga, Inês de seu nome, ajudei-a a levantar, e ela, envergonhada, agradeceu-me e disse-me que não sabia o que o tinha levado a fazer aquilo, que ela não havia feito nada e que ele era muito ciumento e possessivo, que estava sempre a controlar tudo o que fazia, com quem falava, a que horas chegava e que ela tinha muito medo dele, que não sabia o que fazer, que não tinha coragem de contar aos pais ou ao irmão mais velho. E disse-me que para uma menina tão franzina eu tinha mostrado ser muito corajosa, que se eu não tivesse feito nada o mais certo era ele ter-lhe feito ainda mais mal e prometeu-me que nunca mais iria falar com ele e que ia contar aos pais o que se tinha passado.

Eu, que nada sabia de violência doméstica, apenas lhe disse que não podia passar sem fazer nada, que ele era maior que ela e duas contra um sempre tinham mais vantagem. Mas que ninguém deve aceitar que lhe batam ou gritem e que sim, devia contar aos seus pais o que se tinha passado e afastar-se de alguém que a trata mal.

Fui-me embora e a Inês também. Nunca mais a vi, e às vezes pergunto-me se a Inês voltou a falar com ele, se voltou a ser agredida por ele, se está viva. Espero sinceramente que a Inês não lhe tenha dito mais nada e que tenha impedido todas as eventuais tentativas de contacto que ele possa ter tido, pois de certeza que tentou. Pelo bem dela e pela sua saúde também.

Senti-me bem por ter metido a colher, pese embora na altura não soubesse o alcance do significado de tal expressão e, desde então, não consigo ficar indiferente a estas situações. Não quer isso dizer que me vá meter no meio das brigas, pois tenho também de zelar pela minha segurança, mas pego de imediato no meu telemóvel e chamo o 112. Só isso já faz (ou poderá fazer) toda a diferença.

O certo é que anos depois também eu tive um namorado que era mais velho do que eu e que era das chamadas boas famílias. Devíamos ter a mesma diferença de idade que a Inês e o tal rapaz de quem eu a tinha defendido uns anos antes. Também ele me dizia coisas bonitas, até se ter revelado e foi graças à Inês e a me ter lembrado dela que soube lidar com a situação… Mas isso deixo para contar num próximo texto.

Entretanto cresci, tornei-me Advogada e tento transmitir diariamente às pessoas que me rodeiam que a violência é indesculpável, seja ela de que forma for, que não podemos admitir nunca que alguém nos trate mal, que não é amor o nosso companheiro ou companheira querer saber exaustivamente o que fizemos, com quem falamos, o que almoçamos e com quem, quem são os nossos amigos e amigas, quererem as nossas passwords, vasculhar as nossas coisas, os nossos telemóveis, as nossas conversas, as nossas redes sociais, os nossos amigos e amigas, o controlarem a nossa vida até à exaustão.

Que não é amor quando alguém com quem namoramos ou casamos nos bata ou ameace que o faz, nem que seja “só” uma chapada, ou “só” um puxão de cabelos. Mesmo que peça desculpas a seguir e diga que nunca mas nunca mais se irá repetir. Porque vai. E vai escalonar, talvez até ao ponto de serem também um número numa estatística tão triste, e que infelizmente tem vindo a aumentar.

A todos e a todas que estão a ler isto, peço-vos para não ficarem indiferentes quando e se assistirem a alguma situação de violência na rua ou se tiverem conhecimento de uma, seja ela física ou verbal. Esqueçam o velho ditado de que entre marido e mulher não se mete a colher. Mete sim! Ajudem alguém que não está a conseguir defender-se, que muitas vezes está tão aterrorizada/o e/ou dependente do agressor que está petrificada/o, sem saber o que fazer e que só precisa de alguém que lhe mostre que não está sozinho e que lhe diga que aquilo não é amor. Não é respeito. Não é gostar. Que lhe diga que existe mais para além daquilo, mais e melhor. Muito, mas muito melhor.


[1] Fonte: http://www.umarfeminismos.org/images/stories/noticias/OMA_FEMIC%C3%8DDIO_Relat%C3%B3rio_2018_em_18_02_2019.pdf