ENSINAR ÀS CRIANÇAS O CONSENTIMENTO

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A Inês está encolhida no sofá, a rir-se muito. Quase a molhar as calças. Grita ”não, não aguento mais. Pára! Pára, papá, pára”! Mas o pai continua a fazer-lhe cócegas.

O Rodrigo está com a fralda suja. A auxiliar da creche quer mudar a fralda, mas o Rodrigo foge. A senhora está com pouca paciência e tem receio que o rabinho do Rodrigo fique assado. Pega nele à força e, com o Rodrigo a espernear, muda-lhe a fralda.

A tia Sandra quer dar um beijo à Madalena. Mas a Madalena não quer. Protesta e tenta fugir dos braços da tia. ”É só um beijinho, minha querida”, diz a tia, insistindo. ”Vá, Madalena! Dá um beijinho à tia”, reclama o pai, ”senão ela fica triste”!

O Santiago não quer comer mais sopa. Mas o pai está a insistir. O Santiago diz que está cheio. O Pai diz ”não pode ser, quase não comeste nada!” e abre a boca do Santiago, enfiando-lhe uma colher de sopa à força.

A Catarina está a sair para o jardim. Leva o casaco na mão pois não tem frio. A avó vê que ela não tem o casaco posto e ordena-lhe que o vista. A Catarina responde que não tem frio. A avó avisa que, se ela não vestir o casaco, não pode sair. A Catarina sai na mesma. Irritada, a avó tira-lhe o casaco da mão e veste-lho à força.

Poderia continuar a contar histórias que acontecem a toda a hora nas nossas casas e nas nossas escolas, onde nós, adultos – bem intencionados – desrespeitamos os limites pessoais e os “nãos” das nossas crianças. Estamos constantemente a passar a mensagem de que um “não” de alguém numa posição mais ”fraca” não é necessariamente um “não” e vale o que vale…

Há quem ache um exagero comparar o tipo de situações que menciono acima com situações de abuso sexual. É claro que não são diretamente comparáveis, mas a verdade é que a forma como reagimos como adultos nas situações ”pequenas” determina como as nossas crianças vão reagir nas situações ”grandes”. Não há volta a dar: o consentimento, a capacidade de dizer “não” e o respeito pelo “não” é ensinado nas pequenas interações do dia-a-dia entre crianças e adultos.

O processo de ensinar as crianças sobre o consentimento contém dois aspetos fundamentais. Por um lado temos de ensinar as crianças a respeitarem os “nãos” dos outros, por outro, temos de as ajudar a exprimirem os seus “nãos” de uma forma eficaz e saudável. A maneira como as ensinamos é principalmente a maneira como nos relacionamos com estes “nãos”. E tanto o respeito por si mesmo, como o respeito pelo outro é ensinado no mesmo processo. Quando sinto que os meus limites estão a ser respeitados, aprendo a respeitar os limites do outro.

Ensinar as crianças sobre consentimento contribui para a criação de relações saudáveis, dentro da família, com amigos e colegas e com futuros parceiros românticos. É uma parte fundamental do processo para conseguirmos reduzir incidentes relacionados com coação sexual, abuso sexual, perseguição, etc.

Mas o que é então o ”consentimento”? Consentimento é simplesmente a permissão para algo acontecer ou uma concordância em fazer alguma coisa. Consentimento necessita de respeito e de comunicação. O consentimento inclui conhecer e respeitar os próprios limites, bem como os limites dos outros. Entender o consentimento significa que uma pessoa tem a capacidade de abandonar uma situação que a deixa desconfortável e respeitar quando outras pessoas querem fazer o mesmo.

Como pais, podemos iniciar este processo no primeiro dia em que temos o nosso filho nos braços. As crianças nascem com a capacidade de demonstrar os seus limites e precisam de aprender, relacionando-se e interagindo, a respeitar os limites dos outros. O que acontece, na realidade, não é bem isso. Com as melhores intenções, através da forma como muitas vezes educamos, estamos a reprimir demonstrações de defesa da integridade (por exemplo, ao forçar uma criança a vestir-se ou a comer) e a mostrar como não se respeitam os limites dos outros, reforçando que, se tivermos mais poder (por causa da nossa idade, tamanho, força física, ou função, etc), temos o direito de impor a nossa vontade.

É importante referir que praticar o consentimento, também na parentalidade, não significa deixar a criança fazer tudo o que quer, mas antes ter a sensibilidade para entender a diferença entre uma situação em que a criança está a lutar por um desejo que não é uma necessidade ou quando está a procurar defender a sua integridade.  Por exemplo, uma criança que pede um gelado e recusa comer o jantar, não precisa de receber um gelado, mas também não precisa de ser forçada a comer o jantar.

O que podemos então, efetivamente, fazer? Temos de mudar a forma como nos relacionamos com as crianças através da prática de uma parentalidade consciente. Aqui ficam 5 hábitos essenciais que nos ajudam a viver numa cultura de consentimento:

  1. O primeiro passo é memorizar e usar a sequência ”pergunta – ouve (observa) – respeita” e podemos começar com o hábito de perguntar, desde o primeiro dia. Por exemplo, na altura de mudar a fralda de um bebé. Embora o bebé ainda não tenha a capacidade de responder verbalmente, podemos olhá-lo nos olhos e suavemente perguntar ”posso mudar a tua fralda?” e fazer uma breve pausa, observando a linguagem não-verbal do bebé, para depois prosseguir para a mudança da fralda. Ou não. Pode parecer estranho para alguns, mas o treino e a prática é reveladora. Se estivermos bem atentos, vamos perceber que o bebé está constantemente a comunicar connosco, e às vezes pode ser necessário ficar assim a conversar mais um pouco antes de proceder à mudança da fralda. Se estamos perante uma situação de cumprimentar uma criança e temos vontade de lhe dar um beijinho, perguntamos primeiro, ouvimos/observamos a resposta, e respeitamos a resposta. É simples, mas não é muito natural na forma como nos relacionamos com as crianças na nossa sociedade. Como mães e pais conscientes queremos que entendam e sintam que são as donas do seu corpo e da sua integridade, merecendo sempre ser respeitadas.

 

  1. Presta muita atenção a um eventual desconforto relacionado com o toque físico e o desconforto emocional. Com crianças um pouco mais velhas podemos falar sobre o toque que nos faz sentir bem e o toque que nos faz sentir mal. E sempre que um toque causa desconforto, devemos dizer logo que não.

 

  1. Na interação com outras pessoas é o nosso papel, como pais, ajudar as crianças a protegerem os seus limites. Por isso nunca vamos incentivar contacto físico não desejado com outras pessoas, não vamos tentar convencer a criança a dar um abraço ou a sentar-se ao colo. Não vamos usar argumentos como ”assim a avó fica triste”.

 

  1. “Não” e “pára”, são duas palavras fundamentais na nossa comunicação. Quando uma criança diz “não” ou “pára” devemos reagir instantaneamente. Claro que, podem existir situações em que os pais avaliem que o “não” ou o “pára” não são justificados, ou que a criança, se respeitarmos totalmente a sua reação, corra algum tipo de perigo. Nessas situações temos de avaliar se a força que estamos a usar é uma força protetora ou é uma força punitiva, dirigida pelo nosso ego. Haverá sempre momentos em que, como pais, temos de usar a nossa força protetora, no entanto, força punitiva nunca.

 

  1. A consistência nem sempre vem de mão dada com os limites e os “nãos”. Há momentos em que podemos dizer que sim, para depois sentirmos que seja necessário mudar para um não. Só porque a criança disse que queria brincar com um amigo, se mudar de ideias, não vamos obrigá-la a continuar a brincadeira. Principalmente se ela demonstra desconforto. É importante mostrar que quando sentimos que a nossa integridade está a ser desrespeitada, quando estamos a fazer algo contra os nossos valores, contra a nossa vontade, quando estamos a sentir desconforto, podemos, e devemos, mudar de ideias.

Através destes exemplos/hábitos estamos a focar nas interações crianças-adultos, mas claro que também são extensíveis à forma como as crianças se relacionam entre si.

Pode ser que já tenhas os hábitos propostos integrados na tua parentalidade, também é provável que não os tenhas, pois são mesmo hábitos raros na nossa sociedade. Convivemos muitas vezes com as crianças como se fossemos os seus donos. Na nossa cultura, os limites físicos e emocionais das crianças são constantemente desrespeitados. Mas se não tiveste estes hábitos até agora, nunca é tarde para fazeres diferente. Se sentires culpa ao ler isto, transforma essa culpa em ação consciente. Se sentes vontade de defender velhos hábitos, reforço, isto não é uma questão de permissividade, é uma questão de respeito e aprendizagem sobre consentimento, com a intenção de contribuir para um mundo melhor. E esse mundo melhor, é criado com uma tomada de consciência e uma mudança de hábitos.