EDITORIAL: #vermelhoembelem

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Em 2020, a normalidade tirou férias. Por uma vez na história, a humanidade pode experienciar um evento omnipresente, coletivo, transversal, terrível. Um momento histórico repleto de ironias. Um pouco por todo o mundo, sentimo-nos mais próximos de quem estava longe e infinitamente longe de quem costumávamos ter por perto. Um pouco por todo o mundo, vivemos, por alguns instantes, a ilusão de que estaríamos tod@s no mesmo barco. Talvez. Certamente que não na mesma zona do barco. Porque é possível encontramo-nos tod@s a viver a mesma exata experiência, mas em condições tão distintas que, se a descrevêssemos a uma pessoa desprevenida, dificilmente esta as reconheceria como iguais. É assim, a desigualdade.

Em 2020, a Capazes, como um pouco de todo o mundo, parou, mesmo sem poder tirar férias. Porque é difícil viver a história e contá-la ao mesmo tempo. Em 2020, as nossas vidas ficaram suspensas. Planos, objetivos, necessidades, desejos. Impossíveis. Adiados.

No final de 2020, as vacinas vieram trazer uma primavera atrasada e a esperança de podermos retomar as nossas vidas adiadas. As eleições nos Estados Unidos anunciaram o fim de uma Presidência assente no ódio. Iniciou-se em Portugal a campanha para as eleições Presidenciais de 2021, e, com ela, o travo azedo do fascismo, agora disfarçado de populismo moderno.

No dia 31 de dezembro, o mundo despediu-se sem saudades de 2020 e acordou com renovadas expectativas para um novo ano. Com vacinas. Sem Trump na Casa Branca. Com a convicção de que o ódio não falará mais alto. Em resposta, 2021 deu-nos um balde de água gelada. Em poucos dias, confirmámos que o populismo de Trump estava profundamente radicalizado, com o apoio de suprematistas brancos e outros loucos. Nem passados 15 dias, voltámos ao confinamento, enquanto Portugal enfrenta a pior fase da pandemia. Entretanto, a campanha continua. E a primavera tarda em chegar.

Entretanto, a Capazes percebeu que não poderia continuar suspensa. Dentro de poucos dias, nas piores circunstâncias possíveis, iremos saber se o ódio fala mais alto em Portugal. Iremos decidir se nos entregamos ao ódio do populismo. Da divisão do país em pessoas de bem e de mal, fatalmente aleatória, injusta. Da alienação das minorias. Das saudações Nazis. Do machismo disfarçado de crítica de moda. Do que é velho e bafiento, disfarçado de novo e reluzente. Do saudosismo de um passado que nunca existiu. Do falso ouro das respostas fáceis e vazias.

Enquanto o populismo agoniza nos seus suspiros finais nos Estados Unidos, em Portugal a nossa luta começa agora. E é urgente. A Capazes está convicta de que @sportugueses não se deixarão enredar. De que as mulheres portuguesas não se deixarão iludir. E saberão dizer chega a quem gostaria de as silenciar. De que os homens portugueses não se deixarão sucumbir. E saberão dizer chega a quem faz da masculinidade uma ferramenta de agressão.

A Capazes está convicta. Mas sabe que, ainda assim, é preciso percorrer o caminho. As vitórias escondem-se se não estamos presentes. Se não fizermos o trabalho. E, para a Capazes, chegou a hora de voltar ao trabalho!

Contra o machismo, o racismo, a xenofobia, o ódio, a agressividade gratuita, a calúnia aleatória.

#vermelhoembelem