E se fosse o meu C?

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Quando li o texto da Rita, recordei-me de uma experiência. Sou reservada, contudo,
acredito nos benefícios das partilhas. Há uns tempos, fui a uma consulta de
planeamento familiar simplesmente para pedir a receita da pílula. O médico sugeriu
fazer uma citologia. Anui. Enquanto me examinava, foi fazendo algumas
perguntas. Em que fase do ciclo está?
Teve relações sexuais nas últimas horas?
Respondi com alguma ligeireza, o
meu pensamento foi algo do género, “ainda não está tudo feito?”

Partindo da observação, o médico
comentou que seria melhor pedir outra análise, mais detalhada. Rapidamente se
preocupou em explicar-me que era um procedimento relativamente normal, apenas
para ficarmos descansados, principalmente tendo em conta a minha idade. Ele justificava-se,
e eu a leste com a minha vidinha. Ia dizendo que sim, por mim estava tudo bem.
Vesti-me, fui-me embora e nunca mais pensei nisso.

Umas semanas depois, recebo o
telefonema de uma enfermeira pedindo-me para passar no posto de atendimento ao
final do dia. Disse-lhe que não tinha tempo, com aquela ligeireza de quem se
acha mais importante do que a sua própria saúde. Ela foi insistente. E eu lá
fui. A enfermeira sentou-se à minha frente e referiu imensos dados científicos,
 apresentando-me a estatística: as idades
compreendidas entre 25 e os 30 anos compõem um grupo de risco. Esta frase
relembrou-me a Sara. A Sara foi a minha parceira de faculdade. Foram os grupos
de trabalho a formar e solidificar a nossa amizade. Foi o cancro que a levou.
Cedo de mais. A minha Sara era uma guerreira, lutadora com todas as armas.
Ninguém deveria morrer sem viver a vida. A Sara estava a construir a carreira
que tanto merceia depois de anos a estudar, a Sara estava a começar a vida ao
lado do homem que tanto amava. A Sara estava na idade de risco!

Penso que foi aí que finalmente vi
e ouvi a enfermeira. Deixei de a escutar como se fosse citando uma lista de
supermercado e passei a ser toda ouvidos. Explicou-me então que iríamos fazer
novas colheitas para despistar todas as hipóteses, que estas iriam ser
analisadas no IPO, deu-me uma pomada e disse algo do género “vai ficar tudo bem.”
Sorri e saí.

Reajo à posteriori. Fui para casa e não disse nada a ninguém, coloquei o
meu melhor humor e assim andei, até me voltarem a ligar. A rotina, nomeadamente
o trabalho, é sempre um perfeito escape. Algum tempo depois, ligaram-me para ir
à consulta. Percebi logo que já tinham os resultados dos exames. Quando entrei
no consultório senti-me outra vez pequenina, estava sozinha e não tinha contado
nada a ninguém. É a minha forma de reagir. Felizmente, não era cancro, apenas
uma situação anómala, mas “normal” – algo a monitorizar.

Só algum tempo após me “caiu a
ficha”, eu deveria estar mais atenta. Não duramos para sempre e se pudermos prevenir
batalhas, que o façamos, pois também devemos guardar forças para as batalhas
prazerosas da vida.

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