E AS CRIANÇAS BRINCAM QUANDO?

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Diz quem sabe, que estudar é tão importante quanto brincar.

Como mãe, tenho lido imenso ultimamente sobre esta matéria e as opiniões são unânimes. Os especialistas defendem, cada vez mais, que brincar é vital ao bom desenvolvimento das crianças para que cresçam saudáveis e felizes. Exacto, mas quando é que as crianças têm, efectivamente, tempo para brincar?

Veja-se o caso de crianças de dez anos, que começam o dia de aulas pelas oito e vinte da manhã. Em ponto! No mínimo, têm de se levantar às sete para se lavar, vestir, tomar o pequeno-almoço, sair e fazer o percurso até à escola. Muitos ainda têm o stress de ter de apanhar uma série de transportes públicos até lá chegar. Chegados à escola, carregados que nem ‘burros’ com mochilas pesadíssimas cheias de livros, correm escola-a-dentro para não se atrasarem. Já não há toque na escola, por isso, convém prestar sempre muita atenção às horas.

Mas o dia ainda é uma criança…

Têm aulas teóricas, aulas práticas, aulas de apoio, educação física pelo meio e muito pouco tempo para correr, literalmente, de umas aulas para as outras sem atrasos. Cinco minutos para comer a ‘buchazinha’ da manhã, porque os outros dez do intervalo são para marcar a senha do almoço do dia seguinte e ir à casa de banho, na esperança de que não haja fila.

Chegada a hora do almoço, os felizardos vão a casa dos avós; os outros, comem na cantina. E esperam na fila a sua vez. Sempre atentos às horas que ainda mal sabem ver, comem num corrupio e lá vão continuar a sua jornada de ‘trabalho’.

Por vezes, já passa das quatro e meia da tarde quando terminam as aulas. Cansados, famintos e com dores nas costas, exasperam pelo lanche.

Mas o dia não acaba ali.

Seguem-se as explicações onde, os que têm essa sorte, despacham logo as carradas de trabalhos de casa que têm de fazer; para outros seguem-se as aulas de dança, ginástica rítmica, ballet ou karaté que, como se sabe, é importante para as crianças a prática de actividades desportivas. No entanto, ainda há os que chegam a casa já depois do sol-posto, vermelhos que nem tomates depois do treino de futebol e com os trabalhos de casa ainda por fazer.

Entre o: ‘’despacha-te, Tomás, que ainda tens de ir tomar banho!!!’’ e ‘’o jantar está quase pronto!’’ são nove da noite. A mochila do dia seguinte não se faz sozinha e os miúdos, estoirados, muitos deles numa tentativa desesperada de ver um bocadinho de desenhos animados na televisão, caem redondos que nem pedras adormecidos no sofá. Outros acabam de engolir o jantar, lavam maquinalmente os dentes, beijinho-pai, beijinho-mãe, xixi e cama! Contam-se as horas que vão dormir e estas estão longe das recomendadas pelo senhor doutor.

E a rotina repete-se. Segunda, terça, quarta, quinta… chegam ao final da semana exaustos e cheios de trabalhos de casa para fazer, novamente. Sem esquecer a preparação para os testes, os trabalhos de grupo e as apresentações orais. Há que estudar para ter boas notas porque, quiçá, a este ritmo, consciente ou inconscientemente, estamos todos a trabalhar para formar pequenos Einsteins com nove a dez anos …

É caso para se perguntar: afinal, as crianças brincam quando?