E AGORA? por Sofia Fonseca Costa

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A vida do marido de uma amiga minha terminou há três semanas. Doença prolongada para uma pessoa de trinta e poucos anos.

Todos os dias morre o marido de alguém. O filho, o pai, o irmão, o amante, o amigo e o mesmo no género feminino.

A minha amiga escolheu a clausura por não saber lidar com o vazio que tem. Gostava de conseguir deitar por terra a redoma onde está e não o consigo. É impenetrável e só ele a conseguiria demover do que se passa.

Soubéssemos nós que a qualquer instante pode ser a nossa vez e por certo alguns males evitar-se-iam.

E agora? E quando chegar a nossa vez? Quando for alguém que nos faz falta, mesmo estando perto?

Descer-nos-ão todos os “amo-te” que temos encravados nas cordas vocais. Sair-nos-ão do peito e do colo todos os abraços que teimamos em não dar porque não vale a pena. Tomará a vida um novo sentido, aquele que leva à morte certa. Passaremos a valorizar as coisas pequenas e entenderemos que a magia acontece todos os dias diante dos nossos olhos cada vez que o sol nasce, cada vez que a primavera chega com as flores, cada vez que anoitece e a lua sorri nos céus.

Então porque não agora? Porque não ligarmos àquela pessoa só para lhe dizer que gostamos dela? Porque não saímos para dançar à chuva? Porque não deixamos sair os gritos mudos que só nós insistimos em calar?

Aceitar o inevitável faz-nos ser maiores. Faz-nos fazer a diferença. Faz-nos ultrapassar medos.

Tenho palavras que digo todos os dias: “amo-te”, “gosto de ti”, “tenho saudades tuas”, “é bom ter-te por perto”, “sempre”, “estou cá para ti”, “posso ajudar-te?”. Todos os dias contemplo o festival que a Terra me dá. Todos os dias me sinto grata.

E agora, tu o que fazes todos os dias até que a morte chegue e te leve?