E a preta sou eu?

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Outro dia a andar pela rua,
cruzei-me com uma rapariga que devia andar pelos 20 anos, a falar ao telemóvel.

Como em tantas outras situações
idênticas que nos acontecem no dia-a-dia, cruzamo-nos com desconhecidos a toda
a hora, que deambulam pela rua a falar alto ao telemóvel. Podia ter sido apenas
uma dessas circunstâncias banais, se no momento em que passamos lado a lado ela
não tivesse quase gritado ao telemóvel: “… e a preta sou eu?”

Soou-me muito mal e senti-me
envergonhada. Uma miúda daquela idade a usar uma “expressão” destas! Fiquei
incrédula com a leveza com que o fez e da forma natural como disse o que disse,
sem pensar na enormidade do disparate que estava a dizer.

As coisas que aprendemos e
assumimos como naturais, como é o caso de uma expressão destas que dizemos para
enfatizar alguma coisa, não a usamos porque é divertida ou por estarmos na
brincadeira (mesmo nesse contexto seria despropositada), mas porque é altamente
pejorativa. Se pensarmos sobre a mensagem, estamos a ressalvar a injustiça e o
esforço que nos estão a solicitar e que consideramos inaceitável.


A preta: a escrava.


A preta: a mulher.

Aquela que se sujeita, que é
explorada, escravizada e pouco considerada.


A preta.

Acredito que a rapariga branca
que se cruzou comigo naquele dia ao telemóvel utilizou esta expressão com raiva
por se sentir abusada e explorada com alguma coisa que a pessoa do outro lado
lhe estaria a dizer que tinha de fazer. Disse-o naturalmente, sem pensar na
concreta conjugação de palavras e como são horríveis. Passamos séculos a
perpetuar a utilização de expressões de sabedoria popular, absolutamente
grotescas. No fundo, continuamos a alimentar este nosso lado de senhores
feudais (sem feudo) que anda de chicote em riste contra os escravos que têm a
ousadia de não cumprir ou até de se acharem merecedores de igualdade e
respeito. São séculos e séculos a criar gerações de brancos assentes numa
superioridade que não existe.

O mundo mudou muito, as pessoas,
a sociedade, as mentalidades, mas ainda temos muitas arestas para limar. Esta
aceitação da cultura popular, onde se englobam expressões como esta tem de
desaparecer do nosso vocabulário. Não fazem sentido, não é nesta direção que
queremos o mundo ou a educação dos nossos filhos. É ainda por isto, e por tudo
o que representa que países como Brasil elegem o Bolsonaro como presidente ou
Marine Le Pen tem tantos apoiantes.