E a preta sou eu?

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Outro dia a andar pela rua, cruzei-me com uma rapariga que devia andar pelos 20 anos, a falar ao telemóvel.

Como em tantas outras situações idênticas que nos acontecem no dia-a-dia, cruzamo-nos com desconhecidos a toda a hora, que deambulam pela rua a falar alto ao telemóvel. Podia ter sido apenas uma dessas circunstâncias banais, se no momento em que passamos lado a lado ela não tivesse quase gritado ao telemóvel: “… e a preta sou eu?”

Soou-me muito mal e senti-me envergonhada. Uma miúda daquela idade a usar uma “expressão” destas! Fiquei incrédula com a leveza com que o fez e da forma natural como disse o que disse, sem pensar na enormidade do disparate que estava a dizer.

As coisas que aprendemos e assumimos como naturais, como é o caso de uma expressão destas que dizemos para enfatizar alguma coisa, não a usamos porque é divertida ou por estarmos na brincadeira (mesmo nesse contexto seria despropositada), mas porque é altamente pejorativa. Se pensarmos sobre a mensagem, estamos a ressalvar a injustiça e o esforço que nos estão a solicitar e que consideramos inaceitável.

A preta: a escrava.

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