DIVÓRCIO. E AGORA?

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Trinta anos, uma filha de dois e
um trabalho precário. É ela quem tem de sair de casa. Arrenda-se uma perto do
trabalho. Agora cabe-lhe pagar as contas, cuidar da filha e da casa. À sua volta,
medo. Medo de enfrentar tudo sozinha. Como é que se faz? Não há ajudas de
terceiros, não há família por perto. Está por sua conta e risco. Os primeiros
dias são de grande insegurança, ela nunca soube o que era caminhar sozinha. Mas
não pode ser assim tão difícil. É mulher. 

E uma mulher dá a volta a tudo.
Uma mulher faz e refaz as vezes que forem precisas. Uma mulher toma conta de
si, dos filhos, do cão e do gato. Desespera, esmorece, mas continua a andar.
Faz das tripas coração mas não desiste. 

Depois veio o desemprego. Vive-se
com menos, mas vive-se. Entre apresentações quinzenais e buscas de carimbos, as
coisas vão indo. O medo acalmou, ela percebeu que é capaz. Aliás, ela percebeu
que agora tem uma nova vida, uma vida que só depende de si mas que lhe está a
ensinar que estar sozinha não é estar solitária. Estar sozinha começa a
revelar-se uma coisa boa. Tem o seu próprio tempo, não tem a quem dar
satisfações e não depende emocionalmente de ninguém. Dá por si a questionar-se
por que razão as pessoas gostam de viver aos pares. É mais confortável, sem
dúvida, é como ter uma muleta, mas quando se tem duas pernas para quê a muleta?
Ah sim, o amor. Pois, esse malvado que nos cega. É importante, claro, mas ela
começa também a não ver necessidade de o ter por perto. Há oportunidades de
atenuar a fraca solidão que por vezes espreita e isso é mais que
suficiente. 

Finalmente aparece trabalho. É
tempo de respirar de alívio. Ou talvez não. A filha cresceu e já sabe por que é
que os pais não vivem juntos. De vez em quando pergunta se não podem voltar a
namorar e ela explica que quando não há amor as coisas não funcionam. E lá vem
o amor outra vez. Sacana do amor. O amor tem muitas formas e explicar a uma
criança de cinco anos uma das suas facetas não é fácil. Por muitas voltas que
ela dê, a pergunta surge de tempos a tempos e é inevitável sentir a dor de um
casamento falhado. Não devia ser assim. É triste. É mesmo! Mas viver no passado
é coisa que não lhe agrada e se aconteceu é porque estava destinado e não vale
a pena lamentar. Há erros que não têm emenda.

A solidão começa a ganhar terreno
mas ela faz orelhas moucas. São instantes fugazes em que gostaria de um colo
amigo, de dividir o bom e o mau, em que gostaria de acordar acompanhada. Mas
basta uma sacudidela de cabeça para afastar tais ideias. Não trocaria a sua
liberdade por nada, embora seja por vezes medonho remar o barco sozinha. Mas a
verdade é que se não for mais depressa, será mais devagar. Se a força
enfraquecer, a corrente ajuda. 

Ela sabe que consegue bastar-se a
si mesma. Ela aprendeu uns truques que lhe permitem viver com alma de pássaro.
Tem o coração livre e isso é tão importante. A liberdade que ganhou em troca de
um sonho fracassado revelou-se fonte de aprendizagem. Ela aprendeu a dar-se valor,
aprendeu a gostar de si, aprendeu que a sua força se renova a cada tombo e que
na sua vida o seu papel é fundamental.