DIREITO DE MATAR

1045


No primeiro mês do ano houve oito mulheres mortas pelos seus companheiros, maridos, namorados. Basicamente é possível dizer-se que houve uma semana e um dia reservados a que um ser humano tirasse a vida a outro, porque sim.

Foram oito assassinatos que não deixaram história, até por terem todos a história mais do que contada. Elas, entendidas por vítimas por escolha própria, terminaram a relação, abandonaram o lar, não aceitaram continuar a ser maltratadas, enfim, tiveram a iniciativa de se libertarem e ninguém lhes disse que tinham perdido esse direito.

A seguir, se nos dessem a conhecer a história, saberíamos que eles perderam a cabeça, foi a bebida, os ciúmes, as tarefas domésticas que não apareciam feitas, o vestir-se para os outros, a violação do direito de propriedade registado algures. E eles, seres frágeis, não resistiram. Mas já ninguém segue estas histórias. Ninguém vai saber que daqui a uma meia dúzia de anos quem matou estará livre para o fazer de novo e para atormentar as segundas vítimas de que não se fala, os filhos.

Falamos de oito mulheres mortas num mês. Fizeram uma breve chamada de capa nos jornais diários, uma notícia de um minuto no jornal da noite. De quando em vez vasculha-se mais um pouco para ver se se encontra um ou outro pormenor mais sórdido. E dos filhos, quem foi saber? Quantos eram? Eram crianças ou já jovens adultos? Houve família, amigos  que os acolhessem, foram institucionalizados? Isso não interessa.

A história de oito mulheres que morreram
no mês de janeiro termina aqui.

O direito de matar, esse, permanecerá.