DIABOS DOS QUE SE ESQUECEM por João Baptista

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O preto pesava-lhe nos ombros como se de um xaile de lã grossa se tratasse. A pele tinha os traços da idade que com a cor forte se acentuavam ainda mais. O chapéu, esse, também preto e de tecido, tapava-lhe o cabelo mal tratado e fatigado pelo sol que tantas vezes apanhou estrada fora, quando os seus pés ainda tinham a força e a vitalidade de tempos idos.
Agora senta-se na pedra dura e fria, tal como a sua vida sempre o foi. Uma desgraçada cuja maior desgraça foi nunca ter tido a ousadia de sair dali e de trilhar caminhos mais ou menos monocórdicos.
Um dia também teve sonhos e também se desiludiu com eles. Também embelezou a vida com fragmentos do passado e concordâncias aveludadas e macias. Também ela, outrora mulher de jovialidade e trato impecável, sorria com a alegria de quem conquista mundo e espera ainda mais caminho para desbravar.
Hoje os seus oitenta e dois anos sabem a memórias esquecidas. E acredito que algumas estejam tão submersas e distantes que nem ela mesmo se recorde. Só as rugas se encarregam de lhe avivar muitas certezas.
Perdeu o marido numa qualquer guerra que, ainda que não saiba o nome, não é muito diferente daquelas que marcam os dias de hoje. O filho foi para o estrangeiro, por lá ficou e nunca mais se lembrou da pobre coitada. As vizinhas, essas, Deus já as levou e agora nem o falar da vida alheia lhe sabia a tempo. Só o sobrinho a visitava às vezes, quase sempre com a intenção de lhe extorquir o pouco que ainda tinha. Danado do rapaz que quer ostentação às custas de quem não pode.
Ela pouco fala. E raramente levanta a cabeça das peças de renda que faz. Não sei o destino que lhes dá depois. Não tem a quem as oferecer. Sabe-se que ocupa assim o seu tempo.
O tempo que ainda lhe resta. Aquele que pode ser o de dias, o de anos ou o de eternidades sem relógio.
Quando a vi disse-lhe boa tarde. Não levantou a cabeça e não me respondeu. Cá para mim, o que lhe pesa mais, em toda e qualquer forma de viver, é a certeza de que quando partir ninguém deitará uma lágrima por ela. E dói e custa pensar assim.
Talvez o peso do preto que veste lhe facilite os dias. Ajuda-a a lembrar-se dos que já foram e, ao mesmo tempo, dos que a poderiam chorar mais tarde.
Diabos desta gente que se esquece dos que ali permanecem – em pedras frias, sujas e em bruto. E esta será sempre a forma mais subtil de magoar alguém: o desprezo, o esquecimento, a solidão.

E repito – diabos desta gente que se esquece dos que ali permanecem…