DIA DO TRABALHADOR OU DIA DA MÃE?

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 Este ano o dia da Mãe e o dia do Trabalhador assinalam-se na mesma data e não há coincidência mais coerente do que isto, mais exacta, porque mesmo que o saibamos, mesmo que o digamos muitas vezes, não há moura ou mouro no mundo, tão do trabalho como as mães.

Neste Primeiro de Maio, bem que se podia gritar por aí a exigência de menos horas de maternidade, de mais períodos de descanso, de mais almoços fora e subsídios de babysitting. Não ia dar em grande coisa só porque, ao contrário dos outros trabalhadores, mesmo quando as coisas não correm bem, as mães nunca fazem greve. Reclamam, reclamam, mas nunca se despedem, e férias, assim de papo para o ar, está bom de ver, acabaram quando o papo encheu pela primeira vez.

Diz que é feriado, diz que é domingo e mesmo sendo o dia delas ao quadrado, continuará a ser um dia de tarefas hercúleas. Mais ainda se tentarem tomar banho e lavar o cabelo.

Queridas mães.

A ti, que não dormiste nada hoje, nem ontem ou anteontem, mas a quem estão sempre a lembrar daquela manhã de 2013 em que ficaste na cama até ao meio dia. Ou a ti, que dormes que nem uma múmia e só ouves o puto quando ele está roxo, castigando-te continuamente com a procura interna e incessante do tal instinto maternal.

A ti, que berras todas as manhãs com aqueles pequenos zombies molengões e sais de casa exasperada contigo e com eles e a ti, que frequentaste todos os workshops de disciplina positiva e compreensão das emoções, mas que mesmo parecendo que caíste num caldeirão de canábis, também te apetece, de vez em quando, soltar um palavrão.

A ti, que cedes em dar-lhes chocolates mais vezes do que os senhores da televisão acham saudável e a ti, que comes os chocolates deles às escondidas.

A ti, que andas de autocarro com um em cada mão, e a ti, que enfrentas o IC19 com o CD dos Caricas mesmo depois deles já não estarem no carro.

A ti, que tens medo dos trabalhos de casa e da professora porque já não te lembras do perímetro dos polígonos no geoplano e que adorarias dizer ao teu filho que aquilo não vai ser preciso para coisa nenhuma.

A ti, que vais de férias e levas o robot de cozinha para as sopas e a ti, que os deixas na avó, mas passas o tempo inteiro preocupada e manca.

A ti, que tens um marido que partilha ou a ti, que tens um que “ajuda muito” e também a ti, que tendo ou não tendo alguém, és sempre a única a fazer tudo.

A ti, que passas o sábado a aspirar e depois ainda vais torrar a moleirinha para o parque e a ti, que não aspiras, mas também queimas o rabo no metal quente do escorrega.

A ti, que vives um terço da tua vida na cozinha e ainda esperam que emagreças e a ti, que estás magra porque nunca te sentas e já não podes ver comida à frente.

A ti, que catas piolhos com uma mestria equiparada à dos investigadores do National Geographic e a ti, que sabes mais contos infantis que os Grimm ou a ti, que não gostas de contar histórias, misturas a Branca de Neve com os porquinhos, sentes que estás a falar para o boneco e ficas fartinha do tom monocórdico da tua voz… Não és a única, garanto.

A ti, que ficas todo o dia em casa a provir a felicidade e o bem-estar dos teus filhos e ainda ouves que não sabes a sorte que tens e a ti, que sais às seis da manhã e voltas quando eles já estão a dormir, para ouvires que nem sabes quem eles são.

A ti, que lhes trocas os nomes e a ti, que lhes trocas os remédios.

A ti, que não sabes o que é que fizeste para merecer isto (recordo-te que foi sexo) e a ti, que agradeces todos os dias pelas mãozinhas gordas que te puxam os cabelos.

A ti, que os verás entrar pela porta no domingo com flores na mão e já não os vês desde a Páscoa, mas que não passa um dia, ou sequer uma hora, em que não penses que eles estavam bem era em casa e a ti, que foste ao fundo da carteira buscar os últimos trocos para comprar a cartolina com que eles, este ano, te farão mais um cartão purpurinado que repousará orgulhoso ao lado dos outros novecentos e setenta e três de datas passadas.

A ti, que sabes que o “dia do trabalho de mãe”, e a noite, é todos os dias e todas as noites e mesmo assim nunca te demitirias porque mais do que uma fábrica, uma empresa ou um governo, tens uma vida nas mãos.

A ti, que sem direitos nenhuns e tantos deveres, num país que pouco te protege, fazes um trabalho indispensável sem feriados ou licenças por doença, acredita, faça-lo tu como fizeres, ninguém o faria melhor.

Parabéns! Tem o melhor dia do mundo!