DAS PRIMAVERAS (ÁRABES) por Inês Ferreira Leite

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Das Primaveras (Árabes)

No início de março, a Suécia atrasou a renovação de um acordo de armamento que mantinha há vários anos com a Arábia Saudita. Esta decisão surgiu depois da Ministra dos Negócios Estrangeiros da Suécia, Margot Wallström, ter sido impedida de discursar sobre democracia e igualdade de género numa conferência da Liga Árabe, no Cairo. Desde o início do seu mandado que Margot se tem revelado bastante crítica quanto às flagrantes violações dos direitos humanos nos Estados Árabes. Tem criticado a discriminação e violência contra as mulheres e, recentemente, tinha publicamente censurado a condenação do “blogger” Raif Badawi. Em retaliação, a Arábia Saudita retirou o seu embaixador da Suécia, por considerar que os comentários de Margot constituíam uma “blatant interference it its internal affairs”.

E assim poderiam ser lidos aqueles comentários.

No entanto…

Há uns meses, vi um vídeo que circulava no facebook em se pode assistir à execução, na rua, de uma mulher, numa zona ocupada pelo ISIS. A mulher saiu à rua toda vestida de preto e quase toda tapada com um lenço preto, mas… Mas levava um pequeno casaco vermelho, por cima dos vários lenços e panos pretos que a cobriam. Por causa disto, e apenas por causa disto, foi parada na rua, julgada em 5 minutos e executada. À volta desta mulher, durante a proclamação dos seus vários crimes, encontravam-se mais de 20 homens – e muitos, muitos mais foram passando, entre a indiferença e a aprovação – a maioria deles com “smartphones” na mão, filmando. Assim que a bala foi disparada, ouvem-se salvas de aprovação e celebração (Vi o filme, todo, duas vezes. Na altura e agora mesmo, enquanto escrevo isto, porque entendo que se esta mulher foi Capaz de encarar a injustiça da sua morte com tanta dignidade, o mínimo que lhe posso fazer, em homenagem, é obrigar-me a assistir e deixar que a emoção que o vídeo gera me sirva de ímpeto para continuar a falar e a lutar. Não partilho aqui o filme. Se alguém o quiser ver, pode pedir-me em comentário e envio pelo facebook.)

Sei que há uma reação imediata a estes eventos: mas isso são os terroristas! Não representa a comunidade muçulmana!

Não?

Uma mulher é morta na rua porque teve a ousadia (ou a falta de consciência do perigo) de usar uma peça vermelha, numa zona ocupada pelo ISIS. Mas isto é terrorismo, claro.

Em 2008, Aisha Duhulowa, uma rapariga de 13 anos, após ter sido violada e ter denunciado a violação, foi condenada à morte por apedrejamento pelo crime de adultério. Isto não é terrorismo? Em 2014, no Sudão, uma mulher cristã, grávida, esteve em risco de ser executada por bigamia, já que o seu casamento cristão não era reconhecido pela lei islâmica. Felizmente foi extraditada e salvou-se. Isto não é terrorismo? Em 2014, no Dubai – essa nova Meca do dinheiro – uma mulher foi condenada à morte por apedrejamento pelo crime de adultério (O mesmo acontece em todos os Estados muçulmanos em que vigore a “Sharia” e, “to be fair”, aos homens, quando são apanhados, que também sofrem idêntica pena). Isto não é terrorismo? Em março de 2015, Raif Badawi foi condenado na Arábia Saudita a 1000 chicotadas por ter exercido a sua liberdade de expressão. Isto não é terrorismo? São apenas alguns exemplos.

Não podemos condenar as execuções arbitrárias de mulheres e homens realizadas por movimentos islâmicos e fechar os olhos às execuções arbitrárias de mulheres e homens realizadas pelos Estados – os oficiais – Islâmicos. Não é por acaso que entendo – como Ayaan Hirsi Ali – que os Estados Islâmicos promovem um ambiente favorável à violência religiosa e ao terrorismo de Estado, sendo certo que, no mínimo, promovem um ambiente extremamente hostil à liberdade de consciência, à igualdade de género e, enfim, à liberdade…Tenho toda a simpatia pelos muçulmanos que são tolerantes, respeitam a diversidade de opinião e até são a favor da igualdade de género. E até podem ser a maioria. Mas os Estados e os líderes religiosos que os representam não ajudam.

Sendo também certo que os textos sagrados do islamismo e do cristianismo são iguais no incitamento à violência e à repressão da mulher (como a fotografia ilustra), há uma diferença fundamental entre os Estados culturalmente cristãos e os Estados oficialmente islâmicos: nos primeiros, vigora a separação entre Estado e Igreja; nos segundos, não. Mais, a cultura cristã tem evoluído, repudiando, maioritariamente, a aplicação literal das regras do Antigo Testamento. A mesma evolução tem sido mais difícil na cultura islâmica. Por ventura, terá sido determinante a necessidade de manter uma certa integridade civilizacional face ao inimigo externo…

Não me parece que os muçulmanos tenham de escolher entre a cultura islâmica (a parte que é compatível com os direitos humanos) e a tolerância. Contudo, terão de lutar ativamente pela tolerância e pela igualdade de género. Não podem ficar calados. E não pode ser uma luta exclusiva ou predominante dos ocidentais, tantas vezes vista como racista. Só que eu, como ocidental, também não posso ficar indiferente a flagrantes violações de direitos humanos, sejam estas praticadas por muçulmanos, judeus ou cristãos. Pelas pessoas, ou pelos Estados. Não posso sentir-me obrigada a ficar calada, receando reações extremadas ou, no mínimo, ser apelidada de racista. (A Suécia reconheceu o Estado da Palestina este ano, e foi igualmente insultada por muitos judeus e criticada por Israel…). Infelizmente, o Rei Sueco enviou um representante especial à Arábia Saudita, restando dúvidas sobre se houve ou não um pedido oficial de desculpas. Em qualquer caso, por ter ousado falar e por não ceder, Margot Wallström merece o cognome honorário de Khaleesi.

Porque ainda há muitas primaveras árabes pelas quais lutar. E não é só nos Estados Árabes.