Crianças que sabem muito

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Não
soube, durante muitos anos, que um homem bater numa mulher era violência.
Pensava até que todas as famílias eram e viviam assim. Acreditei nisto até ter
entrado  na escola e ter uma grande amiga
chamada que me convidava muitas vezes para ir brincar na casa dela. Na casa
dela percebi que nem todas as famílias viviam assim. Ficava triste, chorava,
escrevia cartas, dobrava-as muito bem, e deixava-as na mala que ele levava para
o trabalho, junto à marmita do almoço. Acho que foi por ele que aprendi a
escrever antes de ter ido para a escola. Por necessidade. Porque precisava de
lhe escrever cartas a pedir para ter calma, para pedir desculpas à mãe, para
não beber mais.

Uma
criança não sabe o que é violência doméstica quando vem ao mundo já parte dela.
Quando ainda na barriga da mãe, ouve-a chorar depois daquele empurrão, murro ou
pontapé. Uma criança não percebe que isso não é normal, quando essa é, de
facto, a sua normalidade, o seu dia-a-dia. O pai do pai fazia-o. A mãe do pai
morreu quando ele tinha 2 anos. O pai não conheceu outra vida. O pai não soube
seguir outro caminho. O pai construiu família na única normalidade que ele
próprio conhecia. Beber nunca ajudou. A bebida sempre foi o combustível. As
noitadas, que por volta dos meus três anos, me acordavam a meio da noite.
Coisas partidas. Uma mãe que chorava. Uma criança muito pequena que se sentia
inútil e  culpada por não conseguir parar
aquela situação.

Os
anos passaram mas essa vida não passou. Já não me sentia apenas triste e
magoada, sentia-me com muita raiva. Nunca me senti vítima, mas perguntava-me,
muitas vezes, porque é que tinha de ser assim. Escrevia e lia dias a fio, o meu
escape para calar os gritos, as ameaças, os ofensas, as portas a fechar com
força, os choros, a falta de respeito, os empurrões, os murros, os pontapés.

Tinha
9 anos, e estava prestes a ter mais uma irmã. A mãe estava grávida, visivelmente
grávida. Não me lembro como começou naquela noite, mas lembro-me de não ter
aguentado e de ter perdido a cabeça quando ele a deixou estendida no chão.
Comecei aos gritos a bater-lhe e a pedir-lhe para chamar uma ambulância. A mãe,
deitada no chão a tremer, com uma barriga enorme. A minha irmã mais nova
chorava com a mão fechada na boca. Foi naquele dia que decidi que tinha de me
ir embora (o que, infelizmente, só pôde acontecer 8 anos mai tarde).

Sei
tudo sobre violência doméstica (mas não sei nada). Sei o que sente uma criança
que entra com um traumatismo craniano nas urgências de um hospital, por ter
perdido um estojo (mas não sei nada). Sei o que é um médico perguntar-te
“como é que isto aconteceu”, e não conseguir responder outra coisa
senão “escorreguei e bati com a cabeça na mesa de cabeceira” (mas não
sei nada). Sei o que é chamar a polícia a meio da noite, com o nariz a sangrar,
erguida em frente à porta que as protegia (mas não sei nada).  Não soube nada durante muitos anos da minha
vida (sempre me disseram e fizeram acreditar que eu não sabia nada) e essa
evidente falta de conhecimento levou-me pelos caminhos que eles caminharam.
Quando nasces e cresces nesta “normalidade”, passas a acreditar que é
porque não mereces nada melhor. Ficas prisioneira da falta de auto-estima.
Tornas-te deliberadamente uma presa para os predadores que andam por aí, e
acreditas que só numa relação doente, podes ser quem tu és de verdade. Foi
assim muitos anos.

Hoje,
mulher madura, casada com o meu melhor amigo (que tantas vezes ainda me seca as
intermináveis lágrimas que estes dias lá longe me trazem e irão trazer para
sempre), decidi escrever este texto porque não há nada de normal nesta
história. E porque hoje, embora já não seja o dia da mulher, não tenho dúvidas:
fui uma criança que soube muito, cedo demais!

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