Conversa de casa-de-banho

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Na sequência da entrada em vigor da nova Lei sobre Identidade de Género, de 2018, o Governo, através do Secretário de Estado da Educação, aprovou um despacho a determinar a sua aplicação às escolas. O que se pretende com estes despacho é que as escolas, mantendo a sua autonomia, encontrem as melhores soluções para garantir que as crianças que não se identifiquem com o seu sexo biológico possam utilizar, com dignidade e segurança, balneários e casas-de-banho de acordo com a sua identidade de género.

Sem surpresa, os mesmos deputados que pediram ao Tribunal Constitucional para aferir da constitucionalidade de uma lei que apenas impõe o respeito pela autonomia e pela liberdade, interromperam subitamente as suas férias para animar o fim da silly season. Não é com grande esperança de que estas pessoas se esforcem por ler e se educarem sobre estes assuntos, mas com o sentido de obrigação que, mais uma vez, publico este texto em tento explicar algo tão simples como isto: respeito, aceitação, empatia.

Conseguem imaginar a violência que representa, para uma menina de 10 anos, ter que ir à casa-de-banho dos rapazes? Ou para um rapaz de 14 anos ter que ir à casa-de-banho das raparigas? Independentemente de quais são os seus órgãos genitais pois, obviamente, estes não são visíveis, nem andam a ser exibidos em público, nem mesmo nos balneários e casas de banho (não sei em que raio de escolas e casas-de-banho é que os membros da Juventude Popular costumam passar tempo). Na escola, à frente dos colegas, e provavelmente de colegas que pouco ou nada sabem sobre identidade de género. Ou, pior, de colegas que receberam educações preconceituosas e ignorantes dos pais (como as dadas, certamente pelos deputados do PSD e do CDS, e seus seguidores, que tanto se enfurecem com um não-assunto como este) e que, por isso, podem mesmo ser cruéis ou agressivos nestas circunstâncias.

Tenho alguma dificuldade em compreender o conceito de liberdade que estas pessoas insistem, na minha perspectiva, com muita dificuldade, estar a defender. Não é a liberdade poder escolher a nossa identidade? Ou liberdade é apenas a de aceitarmos acriticamente o sexo biológico com que nascemos, que pode não ser mais do que um acidente biológico? Vejamos este exemplo. Recentemente, os pais de uma criança, no Canadá, conseguiram que os respetivos documentos de identificação não fizessem referência a qualquer género (aqui). A notícia gerou grande polémica, pois muitas pessoas consideram que estes pais estão a “condicionar a criança” ou a privá-la de ter um género definido. Por um lado, argumenta-se que o género é biológico (confundindo género e sexo), e que, por isso, qualquer identidade de género distinta da biológica só pode resultar de problemas mentais. Por outro lado, contraditoriamente, muitos concluíram que estes pais estariam a colocar em causa a identidade de género da criança, e o direito da criança a uma identidade de género. Será assim?

– Ou o género é mesmo biológico e, portanto, salvo alguns casos raros de hermafroditismo, todas as crianças que nascem com um pénis são do género masculino (e não terão, certamente, problemas em identificar-se com ele) e todas as crianças que nascem com uma vagina são do género feminino (e não terão, certamente, problemas em identificar-se com ele), pelo que haver (ou não) uma referência ao género num bilhete de identidade é irrelevante e não terá qualquer efeito na construção da identidade da criança, tal como irrelevante será a educação dos pais (vestuário, brinquedos, etc.);

– Ou, em alternativa, sexo e género são coisas distintas – o sexo é biologia e o género é construção social – pelo que, afinal, a educação conta e pode influenciar a identidade de género da criança.

Hum… Mas se a educação afinal pode influenciar o género – pelo menos, tanto quanto a biologia – é por isso que todas estas pessoas estão tão incomodadas e preocupadas… Então, não é porque a criança nasce com um pénis que se identifica com o género masculino (só, pelo menos). Será, também, por que, desde que nasce, é ensinada (condicionada, pois não lhe são dadas alternativas) a identificar-se com aquele género. A ser assim, qual é o comportamento parental que mais protege a liberdade? O comportamento dos pais que condicionam as suas crianças a identificar-se com o género biológico: roupa de menino, brinquedos de menino, “boys don’t cry”, futebol, fraco controlo da agressividade, etc., por contraposição a roupas de menina, muito cor-de-rosa, livros de princesas, bonecas, ballet, cupcakes e ajudar a mãe em casa? Ou comportamento dos pais que educam os seus filhos (qualquer que seja o sexo biológico) de igual modo: roupas de acordo com as preferências da criança, brinquedos de acordo com as preferências da criança, atividades extracurriculares de acordo com as preferências da criança, tod@s ajudam a mãe e o pai em casa, seja a cozinhar, seja a limpar a casa-de-banho? É que se liberdade é dar à criança o mais amplo conhecimento para que possa escolher o seu caminho, de acordo com as suas preferências, ao invés de definir à partida qual o caminho para a criança, então são estes pais canadianos quem tem razão. Na realidade, o que preocupa estas pessoas não é a (suposta) falta de liberdade da criança para escolher um género (coincidente, ou não, com o biológico). O que preocupa estas pessoas é o facto de a criança poder vir a exercer a sua liberdade de escolha, poder vir a identificar-se com um género distinto do biológico ou nenhum. O que preocupa estas pessoas (embora muitas nem tenham consciência disso), é, precisamente, a liberdade que está a ser dada à criança.

E já que estou a falar de educação e de limpar casas-de-banho, há um tema muito mais importante do que estes, e muito mais premente, já que nos afeta a tod@s, crianças, homens, mulheres, liberais, conservadores, homofóbicos, fanáticos religiosos, pansexuais, e o que mais quiserem ser: o estado de badalhoquice inqualificável das casas-de-banho públicas em Portugal.

Isto sim, é um verdadeiro e tortuoso flagelo. Admito que haja quem tenha pesadelos com o admirável mundo novo da sociedade pós-moderna: cada um/a ama quem quer, casa ou não casa com quem quer, educa os filhos em liberdade, identifica-se com o género que sente como seu, usa a roupa que quer (sim, os homens também podem usar saias, se quiserem), e por aí em diante. Os meus pesadelos recorrentes resumem-se a casas-de-banho porcas. Só que são pesadelos reais. Num dos episódios das Gilmore Girls, uma das personagens usa como critério de avaliação do índice de porcaria de um determinado local a casa-de-banho portuguesa (a expressão é “this place is worse than a portuguese bathroom”). O mais triste é saber que quem quer que tenha escrito o guião está a falar com conhecimento de causa. Não, não é preconceito cultural, é a realidade. E tem (quase) tudo a ver com educação (ou a falta dela).

Porque os portugueses não são mais porcos do que os outros povos. Nas nossas casas, as casas-de-banho estão geralmente limpas. Nas nossas casas não fazemos xixi em todo o lado menos na sanita, usamos papel higiénico, puxamos o autoclismo, e lavamos as mãos. O que é que se passa para que nos comportemos de modo tão distinto quando somos confrontados com uma casa-de-banho pública? Vejamos os argumentos mais comuns dados por utilizadores de casas-de-banho:

  1. “Ah, mas nunca há papel higiénico!” – Pois não, e sabem porquê? Porque ninguém avisa o responsável pela casa-de-banho quando o papel acaba. Experimentem fazer uma magia secreta que conheço e ver um milagre a acontecer. É assim: dirigem-se a uma casa-de-banho pública e reparam que não há papel; em vez de badalhocarem o tampo da sanita, o chão, as calças e sabe-lá mais o quê, voltem a sair da casa-de-banho, dirijam-se a alguém responsável pelo recinto (pode ser um/a funcionári@ do bar/restaurante, empregad@s da limpeza, etc.) e avisem que o papel acabou, pedindo mais papel; aguardem uns minutos até que o responsável volte com rolos de papel e os instale na casa-de-banho. Et voilá, um milagre! A casa-de-banho já tem papel.
  2. “Ah, mas não me vou sentar no tampo da sanita, está porco” – Pois está. E sabem porquê? Porque a pessoa que usou a casa-de-banho antes o deixou todo sujo. Provavelmente, porque não havia papel higiénico e achou que, como estávamos no apocalipse, já não havia mais papel na terra e não valia a pena pedir… Admitindo que ainda não estamos no apocalipse (nem perante casas de banho portáteis num concerto ao ar livre ou festival de verão, caso em que nada do aqui dito é exequível), deixo alguns conselhos para lidar com este problema e quebrarem o ciclo vicioso de badalhoquice (se não houver papel, regressem ao ponto anterior). Peguem num monte de papel higiénico e limpem o tampo da sanita (deitem o monte de papel higiénico sujo no lixo e não na sanita para não entupir). Verifiquem se o tampo está mesmo limpo, se for preciso, repitam este passo duas ou três vezes (algumas casas-de-banho disponibilizam desinfetante para limpar os tampos da sanita ou toalhitas especiais para limpeza, o que é muito útil). Peguem em tiras de papel higiénico, depois de limparem bem o tampo, e apliquem-nas em cima do tampo, para servir de higienizador ou protetor (algumas casas-de-banho disponibilizam protetores especiais para a sanita, mas, sendo Portugal, uma vez esgotada a primeira recarga, assim ficou até hoje). Verifiquem que o papel higiénico está bem colocado e cobre todo o tampo. Sentem-se confortável – e higienicamente – no tampo da sanita. Quando acabarem, usem papel higiénico, verifiquem se o tampo ficou sujo da vossa utilização (se sim, limpem-no) e deitem o excesso de papel higiénico no lixo. E, ainda, não se esqueçam, se for necessário, usem o piaçaba para limpar a sanita, puxem o autoclismo e lavem as mãos! Com estes pequenos passos – que, idealmente, se deveriam transformar numa rotina – conseguem outro milagre: casas-de-banho limpas! Caso não queiram ter este trabalho, então, pelo menos, levantem o tampo da sanita antes de procederem ao horror que é – para uma pessoa com vagina – fazer xixi de cócoras tentando, inutilmente, acertar num pequeno buraco, enquanto mantém as calças para baixo (pior, as collants!) ou a saia afastada. E façam o favor de limpar os restos de xixi que inevitavelmente vão deixar à volta da sanita (não se esqueçam, os papéis que usam para limpar esses restos deitam-se no lixo).
  3. “Ah, mas é difícil acertar na sanita” – Sim, caras pessoas que têm pénis, é. Existem duas boas soluções para o problema de pontaria. Podem – imagine-se! – fazer xixi sentados. Não é vergonha alguma um homem fazer xixi sentado. Eu sei que poderem fazer xixi de pé é um dos poucos redutos de privilégio que vos resta nesta sociedade que avança perigosamente para a igualdade de género. Mas, a sério, há coisas mais importantes (como consolação, lembrem-se que os homens ainda ganham bastante mais do que as mulheres em Portugal). E, afinal, quando têm que fazer o n.º 2, não fazem sentados? Portanto, caso pretendam ser sensatos, releiam o ponto 2, desta vez como se vos fosse também dirigido (porque é). Caso insistam no privilégio e não haja urinol disponível, pelo menos, levantem o tampo da sanita. E limpem a porcaria que deixam na casa-de-banho.

Por fim, quais são as vossas desculpas para não puxarem o autoclismo ou lavarem as mãos? É certo que em algumas casas-de-banho o autoclismo está avariado, e noutras não há sabão. Felizmente, estes casos são cada vez mais raros e, progressivamente, os portugueses vão dando mais valor à higiene sanitária. A triste realidade é que os maus hábitos dos portugueses nesta área não podem ser atribuídos (inteira ou maioritariamente) à incúria de quem gere as casas-de-banho. Qualquer que seja a casa-de-banho que eu frequente – mesmo as melhores, nos melhores restaurantes ou bares – a porcaria é a mesma. Do que se trata é de falta de educação cívica, de falta cuidado com o que é público (por se achar que não é de ninguém, ao invés de compreender que é de tod@s) e de falta de respeito.

Em matéria de casas-de-banho (como em qualquer outra), não compreendo o medo das pessoas transgénero. Desde que seja do género de deixar tudo limpinho, partilho a casa-de-banho com qualquer pessoa. O que realmente me aterroriza são as pessoas porcas. São muitas e a razão dos meus pesadelos recorrentes. Por isso, por favor, qualquer que seja o vosso género, usem papel higiénico, deixem a casa-de-banho limpa e lavem as mãos.