Conversa de casa-de-banho

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  1. “Ah, mas nunca há papel higiénico!” – Pois não, e sabem porquê? Porque ninguém avisa o responsável pela casa-de-banho quando o papel acaba. Experimentem fazer uma magia secreta que conheço e ver um milagre a acontecer. É assim: dirigem-se a uma casa-de-banho pública e reparam que não há papel; em vez de badalhocarem o tampo da sanita, o chão, as calças e sabe-lá mais o quê, voltem a sair da casa-de-banho, dirijam-se a alguém responsável pelo recinto (pode ser um/a funcionári@ do bar/restaurante, empregad@s da limpeza, etc.) e avisem que o papel acabou, pedindo mais papel; aguardem uns minutos até que o responsável volte com rolos de papel e os instale na casa-de-banho. Et voilá, um milagre! A casa-de-banho já tem papel.
  2. “Ah, mas não me vou sentar no tampo da sanita, está porco” – Pois está. E sabem porquê? Porque a pessoa que usou a casa-de-banho antes o deixou todo sujo. Provavelmente, porque não havia papel higiénico e achou que, como estávamos no apocalipse, já não havia mais papel na terra e não valia a pena pedir… Admitindo que ainda não estamos no apocalipse (nem perante casas de banho portáteis num concerto ao ar livre ou festival de verão, caso em que nada do aqui dito é exequível), deixo alguns conselhos para lidar com este problema e quebrarem o ciclo vicioso de badalhoquice (se não houver papel, regressem ao ponto anterior). Peguem num monte de papel higiénico e limpem o tampo da sanita (deitem o monte de papel higiénico sujo no lixo e não na sanita para não entupir). Verifiquem se o tampo está mesmo limpo, se for preciso, repitam este passo duas ou três vezes (algumas casas-de-banho disponibilizam desinfetante para limpar os tampos da sanita ou toalhitas especiais para limpeza, o que é muito útil). Peguem em tiras de papel higiénico, depois de limparem bem o tampo, e apliquem-nas em cima do tampo, para servir de higienizador ou protetor (algumas casas-de-banho disponibilizam protetores especiais para a sanita, mas, sendo Portugal, uma vez esgotada a primeira recarga, assim ficou até hoje). Verifiquem que o papel higiénico está bem colocado e cobre todo o tampo. Sentem-se confortável – e higienicamente – no tampo da sanita. Quando acabarem, usem papel higiénico, verifiquem se o tampo ficou sujo da vossa utilização (se sim, limpem-no) e deitem o excesso de papel higiénico no lixo. E, ainda, não se esqueçam, se for necessário, usem o piaçaba para limpar a sanita, puxem o autoclismo e lavem as mãos! Com estes pequenos passos – que, idealmente, se deveriam transformar numa rotina – conseguem outro milagre: casas-de-banho limpas! Caso não queiram ter este trabalho, então, pelo menos, levantem o tampo da sanita antes de procederem ao horror que é – para uma pessoa com vagina – fazer xixi de cócoras tentando, inutilmente, acertar num pequeno buraco, enquanto mantém as calças para baixo (pior, as collants!) ou a saia afastada. E façam o favor de limpar os restos de xixi que inevitavelmente vão deixar à volta da sanita (não se esqueçam, os papéis que usam para limpar esses restos deitam-se no lixo).
  3. “Ah, mas é difícil acertar na sanita” – Sim, caras pessoas que têm pénis, é. Existem duas boas soluções para o problema de pontaria. Podem – imagine-se! – fazer xixi sentados. Não é vergonha alguma um homem fazer xixi sentado. Eu sei que poderem fazer xixi de pé é um dos poucos redutos de privilégio que vos resta nesta sociedade que avança perigosamente para a igualdade de género. Mas, a sério, há coisas mais importantes (como consolação, lembrem-se que os homens ainda ganham bastante mais do que as mulheres em Portugal). E, afinal, quando têm que fazer o n.º 2, não fazem sentados? Portanto, caso pretendam ser sensatos, releiam o ponto 2, desta vez como se vos fosse também dirigido (porque é). Caso insistam no privilégio e não haja urinol disponível, pelo menos, levantem o tampo da sanita. E limpem a porcaria que deixam na casa-de-banho.

Por fim, quais são as vossas desculpas para não puxarem o autoclismo ou lavarem as mãos? É certo que em algumas casas-de-banho o autoclismo está avariado, e noutras não há sabão. Felizmente, estes casos são cada vez mais raros e, progressivamente, os portugueses vão dando mais valor à higiene sanitária. A triste realidade é que os maus hábitos dos portugueses nesta área não podem ser atribuídos (inteira ou maioritariamente) à incúria de quem gere as casas-de-banho. Qualquer que seja a casa-de-banho que eu frequente – mesmo as melhores, nos melhores restaurantes ou bares – a porcaria é a mesma. Do que se trata é de falta de educação cívica, de falta cuidado com o que é público (por se achar que não é de ninguém, ao invés de compreender que é de tod@s) e de falta de respeito.

Em matéria de casas-de-banho (como em qualquer outra), não compreendo o medo das pessoas transgénero. Desde que seja do género de deixar tudo limpinho, partilho a casa-de-banho com qualquer pessoa. O que realmente me aterroriza são as pessoas porcas. São muitas e a razão dos meus pesadelos recorrentes. Por isso, por favor, qualquer que seja o vosso género, usem papel higiénico, deixem a casa-de-banho limpa e lavem as mãos.

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