CASTIGOS E A CURA PARA A HOMOSSEXUALIDADE ATRAVÉS DA FÉ

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Há catorze anos fui a Birmingham para deixar de ser homossexual. Fala-se da Igreja Católica por ser a que tradicionalmente tem mais fiéis em Portugal, no entanto, eu pertencia a uma minoria religiosa, o que contribuiu ainda mais para o meu isolamento quando tomei consciência de que era lésbica.

Recuemos até ao ano de 1983, altura em que a minha avó conheceu a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, vulgarmente conhecida por Igreja Mórmon e, juntamente com o meu pai e mãe, fui batizada aos oito anos. Ao longo do meu percurso religioso fui educada e preparada para ser esposa e mãe, ensaiando todos os atributos que são necessários para manter um lar em que o marido é a figura principal. Nunca pus a hipótese de me sentir atraída por raparigas, pois essa era uma realidade distante e nunca abordada no meio que eu frequentava. Às vezes contavam-se histórias, mas que não passavam disso mesmo. Eram “mitos urbanos” ou “provações diabólicas” que acabavam sempre de forma trágica.

Aos dezoito anos, já na faculdade, envolvi-me com uma colega. Dois anos mais tarde, com uma prima distante, embora eu fosse escrevendo uma história muito inocente e acanhada, sem perceber muito bem o que me acontecia e porque motivo as minhas relações heterossexuais duravam tão pouco, tendo em conta o nível de atração e afeição que tinha sentira por aquelas duas jovens mulheres que deixaram uma marca tão grande no meu espírito.

Em duas  ocasiões diferentes, tive que me dirigir ao meu bispo, o líder máximo da cidade em que vivia e confessar-lhe o que havia feito. Sentei-me num gabinete, à frente de um grupo de homens sem qualquer tipo de formação para gerir as informações que lhes transmitiria e contei-lhes as minhas duas histórias, sendo-me pedido que descrevesse os níveis de intimidade, os contornos da relação e até as posições sexuais que tinhamos experimentado. Foi-me aplicado uma espécie de castigo, o chamado “período probatório”, em que eu poderia frequentar as reuniões da igreja, não podendo participar ativamente nas atividades em que estava habitualmente envolvida. Este período duraria três meses, o que não era uma pena pesada, comparativamente a outras situações semelhantes. Depois de uma pesquisa extensiva, percebi o porquê: na Igreja Mórmon não havia muitas normas escritas relativamente às relações homossexuais no feminino – uma consequência da invisibilidade das mulheres – pois, visto que não incluíam penetração peniana, então não eram consideradas relações sexuais mas apenas “intimidade física”. Isso trouxe-me, indubitavelmente, uma penalização mais leve e, como eu já era adulta, o bispo não me obrigou a contar o sucedido à minha mãe. Por outro lado, tendo em conta que a comunidade Mórmon é muito pequena, quase toda a gente reparou que algo se passava comigo, pois sendo eu uma pessoa muito ativa nas cerimónias religiosas, tinha sido remetida ao silêncio e à contrição, o que me fazia sentir observada e humilhada.

Cumpri o meu castigo de forma exemplar, pois queria voltar a participar de todas as cerimónias e aulas, buscando o objetivo máximo de casar e ter filhos. Aquela era a minha realidade, o que me era compulsivamente ensinado desde os oito anos. Acabei a faculdade e dediquei-me, parcialmente, ao proselitismo. Na minha cabeça, se me entregasse inteiramente à Igreja, não haveria espaço para ceder à minha maior fraqueza.

No final do Verão de 2005, recebi a carta que vinha de Salt Lake City (onde se situa a sede da Igreja) que me dizia que eu iria servir uma missão de dezoito meses, partilhando as minhas crenças com os demais. Achava que o meu plano era infalível, pois não poderia estar mais protegida. Tinha vinte e dois anos. No entanto, a minha perspectiva carregava um filtro que alterava as cores que o mundo tinha, deixando-o a preto e branco.

Enquanto me preparava para partir, conheci uma missionária americana de quem me tornei muito próxima. Ela acabou por me contar algumas das suas histórias pessoais e isso fez com que se desenvolvesse um laço muito emotivo entre nós, envolto numa espiritualidade latente. Mais uma vez, senti uma clara atração física e isso acabou por resultar numa troca de afeto que ia muito para lá da amizade. Ela funcionou como uma espécie de cavalo de Tróia no meu percurso religioso e seguiram-se semanas de culpa e de frustração, pois sentia-me impura e indigna de partir em missão. Decidi confessar-me, pela terceira vez, a um terceiro bispo e, daquela vez, por ser reincidente, enfrentei um tribunal composto por três homens. Sem qualquer tipo de cuidado perante as implicações emocionais e psicológicas que as suas decisões pudessem ter, fui sentenciada a dezoito meses de “desassociação”, não podendo ter qualquer tipo de cargo ou responsabilidade na Igreja, sem poder dar aulas dominicais ou envolver-me na música ou no coro, sem poder discursar perante a congregação ou participar de outras reuniões específicas. Achei que não conseguiria suportar aquela pena e lembrei-me do que havia sentido dois anos antes, do quanto desejei morrer se isso significasse não pecar mais, e de me sentir um vaso estilhaçado, sem qualquer possibilidade de recuperação.

Estávamos em Novembro e tinham expirado os prazos para me inscrever numa pós-graduação. A americana tinha sido enviada para casa, proibida de me contactar e eu era aconselhada a casar-me, visto que tinha diversos homens religiosamente “dignos”, interessados em mim. Decidi que ia trabalhar, juntar algum dinheiro e viajar até Birmingham, Inglaterra, onde se encontravam os “LDS Family Services”, serviço prestado pela Igreja com psicólogas formadas que ajudavam as famílias Mórmons em alguns problemas “mais graves”. O meu bispo havia falado nessa hipótese e eu decidi ir.

Voei para Inglaterra e fiquei na casa de amigos Mórmons. Paguei pela minha estadia, paguei pelas viagens e transportes e paguei também duas consultas que tive com a terapeuta. Contei-lhe a minha história e ela disse-me que iria ajudar-me a “resistir à tentação”, que eu poderia desenvolver mecanismos para não ceder aos impulsos que sentia. Na altura, reli os diários que escrevia desde os meus sete anos e apercebi-me de como tinha ignorado os inúmeros sinais sobre a minha sexualidade, ao longo da vida. Na verdade, eu nunca me tinha dado a oportunidade de sentir fosse o que fosse e de me conhecer sem me condenar e culpabilizar de forma imediata. Tinham-me traçado um percurso igual ao de todas as outras meninas Mórmons, e se eu  pintasse fora do risco, só me restava retratar-me ou, por anátema, excluir-me-iam. Felizmente, contrariando a vida de angústias constantes que me esperaria, descobri um terceiro caminho e disse à psicóloga que queria regressar a Portugal, para viver uma vida escolhida por mim. Telefonei à minha mãe e disse-lhe isso, questionando se ela me aceitaria em casa, ao que ela respondeu que sim, embora pouco convencida.

O dinheiro que eu tinha juntado e convertido em libras, esgotou-se, por isso deixei a minha máquina fotográfica como forma de pagamento da terceira semana de estadia e liguei à minha mãe para me ajudar a pagar a passagem de regresso: “Filha, se queres voltar, arranja uma maneira”. Percebi rapidamente que me queriam obrigar a ficar ali, a trabalhar e a procurar a ajuda da Igreja. Afinal de contas, o que sabia eu do mundo fora da realidade Mórmon, da sociedade suja e cheia de predadores? Eu seria uma “flor no meio do entulho que rapidamente murcharia” – palavra de bispo. Há tantas histórias por aí , tantas que se escondem em gabinetes de seitas obscuras e imersas em ignorância.

Telefonei ao meu pai, que havia deixado a igreja pouco antes de se divorciar da minha mãe, e ele comprou-me o bilhete de avião. Dormi a minha última noite numa sala de espera de Stansted, aterrei no aeroporto Sá Carneiro, apanhei o comboio para Lisboa e depois o autocarro para Setúbal, fazendo o resto do percurso até casa, caminhando.