CASEI (TAMBÉM) COM A TUA FAMÍLIA

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Isto das relações familiares pode ser comparado àquelas almofadas de costura em forma de coração carregadas de alfinetes. É bonito e dá vontade de mexer, mas corremos o risco de nos espetar ao primeiro toque. Acho, e permito-me afirmar como se de uma certeza absoluta se tratasse, que nenhuma relação é fácil de gerir. E aqui cabem todas. As familiares, as entre amigos, aquelas que vivemos em casa e que se fazem a duas cabeças com tudo o que têm de diferente e de igual. E aquelas que herdamos através do casamento, porque, afinal, já tínhamos uma família e agora passamos a ter duas.

Quando casamos, casamos com a família. Herdamos amigos. Temos, naturalmente, mais afinidade com determinadas pessoas e, mesmo sem o querermos, não conseguimos lidar com outras. É obrigatório aprender a jogar ao jogo das cedências. Temos que saber sacrificar tanta coisa. Vivemos numa espécie de combate onde a primeira regra é: eu fiz por ti, tu tens que fazer por mim. Não sei se é assim com toda a gente, nem sei se é o certo, mas passa-se em muitas casas que conheço. Aliás, arrisco-me a dizer que nunca conheci um casal que não tenha na sua história um qualquer parente que incomoda, ou de quem não se gosta, ou de quem já se ouviu coisas que fazem estremecer a espinha. Às vezes sentimo-nos gordos de tantos sapos que engolimos.

E equilibrar isto? E aprender a lidar com isto? É uma tarefa árdua. Se toca aos nossos, ofendemo-nos. Se é sobre os outros, somos mais benevolentes. Os laços de sangue pesam. E muito. Cegam-nos algumas vezes e é difícil sentir que alguém, que não nós, critica ou aponta o dedo. Tantas vezes as coisas que também nós sabemos certas. É uma balança daquelas antigas. Com peso incerto. Colocamos num prato a nossa família e, mesmo que o façamos de forma inconsciente, os nossos pesam sempre mais.

É difícil, no final, gerir aquilo que vivemos em casa e o que, forçosamente, lhe vem agarrado qual gémeo siamês. A paixão tem que ser mais forte? Não me lixem. A paixão é forte, mas não é imortal. Também padece de doenças. Também se ofende e fica sem falar, qual criança amuada a quem tiraram o chupa. A paixão nem sempre sobrevive e esta acaba por ser a relação mais difícil de gerir, porque muitas vezes é afectada pelos problemas que advêm das relações com os outros, nomeadamente com a nossa família directa. No fundo, não são duas pessoas que casam. São várias. E é impossível que se mantenham todos apaixonados até à eternidade. É bonito e soa bem, mas é uma mentira descarada.

Os seres humanos, e as relações entre eles, podem ser bichos estranhos. Assim tipo papa-formigas. Temos fragilidades, inseguranças, medos quase infantis. Não estamos sempre certos, mas, a maioria das vezes, julgamos estar. Pedir desculpa é igualmente penoso. Tem espinhas. Andamos à roda e voltamos ao princípio. Admitir que não estamos certos e, sobretudo, fazer pelos outros, é cada vez mais difícil. Vivemos num mundo egoísta, onde se torna cada vez mais duro alimentar e cuidar relações, sobretudo porque as relações não se fazem só daquela que vive entre quatro paredes com a pessoa que escolhemos. Também se fazem dos pais dele(a), irmãos, avós. E isto às vezes custa. E dá tonturas.

Mas, com muita pena minha, havemos sempre de nos picar nos alfinetes. Havemos sempre de entrar em confronto a dada altura. De pesar laços de sangue e de os defender. Gostava de ter uma solução mágica, mas não tenho. Acho que ajuda passarmos por um processo de introspecção em que, obrigatoriamente, temos que avaliar o contexto em que vivemos. Aceitar que não somos mais nem melhores que ninguém. Aceitar que é preciso ceder, fazer, construir. Em conjunto. É preciso casar com tudo o que já existia antes de lá chegarmos. É preciso saber que não somos de ninguém e que ninguém é, exclusivamente, nosso. E o sangue pesará sempre. Muito.