BEATRIZ por Sofia Vieira

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Que relação atribulada, a nossa. Desde o dia em que forçou a saída da minha barriga, com tal determinação que a cabeça parecia um míssil, a moleirinha em bico a provocar o pânico nos homens da família, ai senhor doutor que a miúda veio mal formada!, que eu soube que isto não ia ser fácil. Nada de arco-íris nem de frémitos religiosos, nada de um amor esmagador nos segundos depois de parir, nenhuma força telúrica mística e arrebatadora. Só estupefação, um atordoamento como se atropelada por um comboio e a esmagadora responsabilidade de a ter por minha conta, ai se a deixo cair! (e deixaria de facto, duas vezes, mas tivemos sorte). Cresceu em mim na directa proporção da curva expansiva do seu percentil, mas devagarinho: o amor a começar a percorrer-me as veias como o soro que se injecta aos acamados por um cateter, a pingar devagarinho, a circular, até chegar por fim a todo o lado.

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