ATIREI O PAU AO GATO E OUTRAS CANÇÕES SUPOSTAMENTE INOCENTES

1830

Desde
que fui mãe, as canções infantis têm um papel muito importante na minha vida.
Não consigo exprimir a enorme gratidão que sinto pela malta da Galinha
Pintadinha ter inventado o tema “Upa Cavalinho”. Quando tudo falha,
essa é a minha única arma eficaz contra uma birra de sono épica na cadeirinha
do carro. Não sei como nem porquê… mas funciona sempre.

É
claro que nem todas as canções infantis são boas ou passam a mensagem mais
correcta. Há algumas bastante sinistras e outras que são muito, muito parvas.
Consigo perdoar a “Atirei o Pau ao Gato” porque é uma canção antiga e
faz parte da nossa cultura (embora “atirei o peixe ao gato/mas o gato não
comeu” seja muito melhor e encaixe igualmente bem na melodia). Mas quando
um compositor contemporâneo escreve porcarias, morre um pedaço de mim.

Procurando
alternativas à Galinha Pintadinha em português de Portugal, encontrei uma
canção intitulada “Barulho da Chavinha” que tem a seguinte letra:

“O
barulho da chavinha

Que
acabamos de ouvir

É o
papá que vai entrando

Abre
a porta devagar

Chegou
o papá

Ele
acaba de chegar

Chegou
o papá,

Um
beijinho vai-me dar”

No
vídeo veem-se os miúdos em casa entretidos e, quando o pai chega do trabalho,
correm para ele e dão-lhe beijinhos, todos contentes. A melodia é gira e fica
no ouvido, a filha estava a gostar… estava tudo a correr bem.

Até
que aparece no vídeo a mãe com um espanador a limpar e se ouve:

“A
mamã com seu jeitinho

A
casa toda arrumou,

P’ra
receber o papá,

Que
acaba de chegar”

E
eu bloqueei, não estava a acreditar.  


que isto é repetido várias vezes, não há espaço para dúvidas. O pai aparece a
jogar futebol com o filho e a dar um beijinho na filha enquanto ela faz os
trabalhos de casa (em frente a uma parede cor-de-rosa, com livros cor-de-rosa
em cima da mesa e usando um lápis rosa para escrever, claro). A mãe só aparece
a limpar e a dar um beijo no marido que chega e eu fico a olhar para aquilo,
incrédula com tamanha falta de noção.

Quem
se lembrou desta canção não fez por mal, provavelmente até é adaptada de outro
lado qualquer. Se calhar acharam a mensagem bonita, de alegria perante a
chegada do pai. Há aspectos da desigualdade de género tão enraizados que não
nos chocam, passam despercebidos, vão-se infiltrando desde a primeira infância
sem que nos apercebamos disso.

A
música e a arte são veículos poderosíssimos de aprendizagem. Não é por
acaso que nos berçários e jardins de infância se canta tanto: os miúdos ouvem
as mensagens das canções e aplicam-nas no dia-a-dia. É uma forma simples de
lhes incutir determinados valores e regras. Se os nossos filhos crescerem a
ouvir e a cantar sobre um papá que chega e uma mamã que limpa, isso vai ficar
gravado na sua memória e tornar-se-á mais aceitável na vida adulta. Nada é
definitivo, claro, e uma canção estúpida não é o fim do mundo. Mas a luta pela
igualdade de género começa na infância, pois é aí que começa a formação dos
valores e da personalidade de cada um. 

Não
é preciso mostrar só Mozart aos miúdos mas, se calhar, devíamos exigir mais
cuidado de quem produz música infantil, pelo bem de todos nós. Afinal, criar
para crianças é uma responsabilidade enorme: as mentalidades que moldamos hoje
serão as que governarão o mundo amanhã. 

E eu
não quero viver num mundo de mamãs cuja função principal é preparar a casa para
a chegada do papá.