ATIREI O PAU AO GATO E OUTRAS CANÇÕES SUPOSTAMENTE INOCENTES

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Desde que fui mãe, as canções infantis têm um papel muito importante na minha vida. Não consigo exprimir a enorme gratidão que sinto pela malta da Galinha Pintadinha ter inventado o tema “Upa Cavalinho”. Quando tudo falha, essa é a minha única arma eficaz contra uma birra de sono épica na cadeirinha do carro. Não sei como nem porquê… mas funciona sempre.

É claro que nem todas as canções infantis são boas ou passam a mensagem mais correcta. Há algumas bastante sinistras e outras que são muito, muito parvas. Consigo perdoar a “Atirei o Pau ao Gato” porque é uma canção antiga e faz parte da nossa cultura (embora “atirei o peixe ao gato/mas o gato não comeu” seja muito melhor e encaixe igualmente bem na melodia). Mas quando um compositor contemporâneo escreve porcarias, morre um pedaço de mim.

Procurando alternativas à Galinha Pintadinha em português de Portugal, encontrei uma canção intitulada “Barulho da Chavinha” que tem a seguinte letra:

“O barulho da chavinha

Que acabamos de ouvir

É o papá que vai entrando

Abre a porta devagar

Chegou o papá

Ele acaba de chegar

Chegou o papá,

Um beijinho vai-me dar”

No vídeo veem-se os miúdos em casa entretidos e, quando o pai chega do trabalho, correm para ele e dão-lhe beijinhos, todos contentes. A melodia é gira e fica no ouvido, a filha estava a gostar… estava tudo a correr bem.

Até que aparece no vídeo a mãe com um espanador a limpar e se ouve:

“A mamã com seu jeitinho

A casa toda arrumou,

P’ra receber o papá,

Que acaba de chegar”

E eu bloqueei, não estava a acreditar.  

Só que isto é repetido várias vezes, não há espaço para dúvidas. O pai aparece a jogar futebol com o filho e a dar um beijinho na filha enquanto ela faz os trabalhos de casa (em frente a uma parede cor-de-rosa, com livros cor-de-rosa em cima da mesa e usando um lápis rosa para escrever, claro). A mãe só aparece a limpar e a dar um beijo no marido que chega e eu fico a olhar para aquilo, incrédula com tamanha falta de noção.

Quem se lembrou desta canção não fez por mal, provavelmente até é adaptada de outro lado qualquer. Se calhar acharam a mensagem bonita, de alegria perante a chegada do pai. Há aspectos da desigualdade de género tão enraizados que não nos chocam, passam despercebidos, vão-se infiltrando desde a primeira infância sem que nos apercebamos disso.

A música e a arte são veículos poderosíssimos de aprendizagem. Não é por acaso que nos berçários e jardins de infância se canta tanto: os miúdos ouvem as mensagens das canções e aplicam-nas no dia-a-dia. É uma forma simples de lhes incutir determinados valores e regras. Se os nossos filhos crescerem a ouvir e a cantar sobre um papá que chega e uma mamã que limpa, isso vai ficar gravado na sua memória e tornar-se-á mais aceitável na vida adulta. Nada é definitivo, claro, e uma canção estúpida não é o fim do mundo. Mas a luta pela igualdade de género começa na infância, pois é aí que começa a formação dos valores e da personalidade de cada um. 

Não é preciso mostrar só Mozart aos miúdos mas, se calhar, devíamos exigir mais cuidado de quem produz música infantil, pelo bem de todos nós. Afinal, criar para crianças é uma responsabilidade enorme: as mentalidades que moldamos hoje serão as que governarão o mundo amanhã. 

E eu não quero viver num mundo de mamãs cuja função principal é preparar a casa para a chegada do papá.

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