ASSÉDIO SEXUAL por Maria Elisa Domingues

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Uma das mais célebres e admiradas estrelas da televisão americana – e até mundial – de todos os tempos, o comediante Bill Cosby, de 77 anos, está a ser investigado pela LAPD (Polícia de Los Angeles) sobre uma acusação de ter drogado e violado uma menor.

Na realidade, a primeira acusação, de uma outra mulher, surgira já em 2005 mas foi rapidamente resolvida, através de um acordo entre os advogados do actor e da queixosa e ninguém acreditou nesta última. Bill Cosby, casado há 51 anos com a mesma mulher, goza de um estatuto praticamente único nos EUA, sendo considerado uma espécie de pai e marido ideais por toda a sociedade. Um dos programas de televisão que se mantiveram mais anos no ar, exportado para todo o mundo, o “Bill Cosby Show”, onde desempenhava justamente esses papéis, contribuiu fortemente para a forma como o actor era, é, admirado. Por outro lado, sendo negro – assim como o resto desse elenco – a popularidade e humanidade do “show” foram muito importantes para a forma como os negros americanos passaram a ser vistos pela sociedade. Além disso, Cosby ajudava também jovens actores negros a iniciar as suas próprias carreiras, através da televisão, tudo contribuindo para a lenda que se foi construindo à volta do seu nome.

Mas agora, e depois da primeira mulher ter aparecido na televisão a denunciar publicamente a violação de que fora vítima anos atrás, outra e outra e outra seguiram o mesmo caminho, sendo mais de 25 as mulheres que afirmam ter sido vítimas das agressões sexuais de Bill Cosby quando eram jovens, muitas ainda menores. O caso que está já a ser analisado corresponde a uma vítima que apresentou queixa formal à polícia, sendo provável que outras, que já depuseram em público e constituíram advogados, venham a seguir o mesmo caminho.

Embora, naturalmente, Bill Cosby seja inocente até se provar o contrário, não deixa de ser estranho que mais de duas dezenas de mulheres, de raças e extractos sociais totalmente diferentes (entre as quais uma ex-top model muito famosa e acarinhada nos EUA, Janice Dickinson) façam acusações onde os traços comuns são inúmeros, os alegados procedimentos do actor também – regra geral, convidava as jovens para um drink na sua suite, depois de um espectáculo e, segundo elas, metia alguma pílula na bebida que as adormecia, para acordarem numa cama molestadas, horrorizadas e culpabilizadas, como acontece a quase todas as vítimas de violação – assim como a incapacidade das vítimas para acusarem publicamente um homem no apogeu da fama e do poder, com uma aura de excelente pessoa.

Uma ou outra das vítimas tentou, mais tarde, já menos jovens e ingénuas, negociar com os advogados do actor o seu silêncio, procedimento utilizado agora por estes para pretenderem justificar todas as actuais denúncias. As acusadoras, pelo contrário, afirmam não estar a negociar dinheiro mas a pedir justiça perante um trauma que as perseguirá toda a vida.

Até agora, e apesar da enorme dimensão pública que o caso está a tomar- algumas das queixosas têm dado entrevistas muito explícitas e dramáticas em vários programas de tv – Bill Cosby adoptou a atitude de não proferir uma única palavra sobre as acusações de que é vítima, delegando as contestações nos seus advogados. Mas anulou uma série de espectáculos que ia dar, assim como as entrevistas nos principais “talkshows” da tv, cujo pretexto era a promoção do espectáculo. Só o tempo e a justiça, que já começou a actuar, nos permitirão conhecer a verdade dos factos.

Este caso recordou-me um outro, bem mais impressionante, que abalou a Grã- Bretanha em geral, e a BBC em particular, dois anos atrás.

Jimmy Savile foi um dos mais populares apresentadores da BBC durante dezenas de anos. O seu “show” mais famoso chamou-se “Jim’ll fix it” e, entre muitos outros programas, também apresentou o “Top of the pops”, transmitido igualmente entre nós. Jimmy foi, durante décadas, uma das maiores estrelas britânicas, constando que passava férias com os Thatchers, era acarinhado pela Rainha, foi apresentado ao Papa João Paulo II na sua visita à Grã-Bretanha, entre muitas outras honrarias.

Uma das razões porque se tornou mais amado pelo povo britânico foi o facto de ser um extraordinário angariador de fundos para o hospital de Leeds, onde se tornou mais um da casa, prestando inúmeras horas de serviço como voluntário, vestido a rigor, de bata branca, com pleno acesso a todos os departamentos do hospital.

Entretanto, na sua contínua actividade na BBC, haviam surgido, ao longo dos tempos, rumores desagradáveis, segundo os quais ele perseguiria sexualmente jovens empregadas da casa ou jovens dos elencos dos shows de que era protagonista. Mas ninguém levou as queixas ou as queixosas a sério – impossível que isso acontecesse com Jimmy, um coração de ouro, o mais generoso dos homens. Jimmy Savile morreu em Outubro de 2011, idolatrado até ao fim.

Mas em 2012, um investigação do Serviço Nacional de Saúde inglês tornou público que Jimmy Savile foi um dos mais brutais predadores sexuais que a Grã Bretanha já conheceu, pensando-se hoje que o número das pessoas molestadas por ele estarão perto das 1000, a mais nova com 2 anos, a mais velha com 75. E porque foi o SNS inglês a descobri-lo? Porque, ao contrário da BBC, reagiu a rumores surgidos no hospital de Leeds e procedeu a uma investigação, chegando a conclusões cuja dimensão deixou o país em choque.

Foi então que surgiram as acusações contra a BBC: porque falhara o serviço público de televisão inglês uma averiguação, quando os rumores existiam há décadas? A BBC passou por uma profunda convulsão interna, várias demissões e acabaria por se retratar publicamente, considerando ter falhado completamente perante acusações tão graves.

Segundo os psicólogos do SNS inglês que acompanharam a investigação, a razão que permitiu a J.Savile manter um tal comportamento durante décadas sem ser publicamente denunciado, reside no intimidante poder da celebridade. O próprio Savile terá dito a uma das mulheres que violou: “Fica calada. De qualquer modo, ninguém acreditará em ti. Eu sou Jimmy Savile”.

Das muitas análises sobre o comportamento da BBC face aos rumores internos de agressões sexuais, conclui-se que, de algum modo, existia no serviço público, nos anos 80, uma cultura em que a perseguição sexual e, sobretudo, os comentários de conteúdo sexual explícito dos homens para as mulheres – sobretudo as que estavam em situação de inferioridade – eram tolerados.

A cada vez maior emancipação e promoção das mulheres na sociedade alterou, em boa parte, esses comportamentos. Na BBC, depois do choque brutal de 2012, essa mudança foi muito mais profunda.

Mas o que está por detrás destes e de tantos outros casos que não chegam ao conhecimento público reside no mesmo princípio: a ideia de que o poder e o dinheiro permitem aos homens liberdades sexuais mais ou menos explícitas perante as mulheres, sobretudo as mais jovens e mais frágeis.

Tal como existiu durante séculos nos campos ou nas fábricas, este tipo de comportamento existe ainda hoje também na comunicação social, nas redacções: não são poucos os casos de jovens vítimas das tentativas ou mesmo das investidas sexuais dos seus patrões ou superiores hierárquicos. E se, além de ter poder, ele for famoso, quiçá até “uma boa pessoa”, amiga de ajudar, quem vai acreditar na jovem estagiária ameaçada ou mesmo agredida? E o que acontecerá ao seu precário posto de trabalho se fizer uma denúncia? Ninguém quer pessoas que tragam problemas numa redacção ou em qualquer outro local de trabalho.

Infelizmente, alguns homens interpretam o facto da as mulheres poderem hoje, desde jovens, usar da sua liberdade sexual, para abusarem delas, mesmo contra sua vontade, sobretudo quando o equilíbrio de forças o facilita. Esta é uma das maiores e mais silenciosas formas de discriminação e exploração sexuais, em relação à qual muito caminho há ainda para andar, mesmo no mundo dito civilizado.

Maria Elisa Domingues

Lisboa, 10 Dezembro 2014

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