AS OUTRAS VÍTIMAS DA VIOLÊNCIA DOMÉSTICA

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Ainda que a morte física de uma
criança seja um dos acontecimentos que mais nos choca e magoa, posso dizer-vos
que morte da sua essência é igualmente grave e avassaladora. Todos os dias,
mais perto do que imaginamos ou do que estamos disponíveis para ver, morre a
essência de uma criança exposta à violência doméstica.

Quando uma
criança vê a mãe a ser humilhada, insultada, agredida, por vezes até violada na
forma como é tocada, existem vários pedaços de si, da sua essência, que
morrem – os valores familiares, a experiência de amor e de afeto, a sensação de
proteção e de segurança,  a confiança nas
boas intenções dos adultos, a admiração por figuras essenciais, a entrega ao
outro e a esperança numa vida feliz.

Dia após
dia, estes pedaços vão-se desvanecendo, vão perdendo o brilho. As crianças
continuam por cá, no mundo físico, mas muitas vezes só carregam sofrimento. Uma
parte delas desiste e rende-se ao que viu fazer enquanto a outra parte continua
a lutar por fazer diferente. Ainda assim, não se enganem, um adulto de hoje que
tenha sido exposto a violência doméstica durante a infância, facilmente quebra quando
recorda aquilo a que teve de sobreviver.

Precisamos
de levar a sério a morte destas crianças que permanecem vivas. Numa situação de
violência doméstica, quando existem filhos, o número de vítimas nunca os pode
excluir. Quando é que vamos começar a contabilizar as sequelas deixadas nas
crianças, também elas vítimas? Quando é que vamos perceber que existem feridas
que dificilmente saram? Quando é que vamos aplicar medidas (escritas já
estão) que quebrem um ciclo que parece interminável?

Digam-me,
por favor, quando é que vamos assumir que, mesmo que continuem fisicamente
neste mundo, todos os dias “morrem” crianças vítimas de violência
doméstica?

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